Eu finalmente vi A Odisseia, de Christopher Nolan, e cheguei até a esboçar um texto sobre o filme, que publiquei nas minhas redes sociais, mas acabei apagando-o por não considerá-lo suficientemente maturado.

Já adianto que será muito difícil para mim apresentar alguma novidade analítica, porque tudo sobre esse filme já foi discutido à exaustão. Não tenho absolutamente nada de novo a acrescentar.

Inclusive, cabe aqui um comentário: isso já torna A Odisseia um dos grandes filmes do ano, quer você tenha gostado dele ou não.

Bem, vamos lá. Creio que todo mundo já disse isso, e eu apenas vou repetir: Christopher Nolan reinventou A Odisseia à imagem e semelhança de sua própria filmografia. Sua versão dialoga muito mais com Oppenheimer (a culpa), Dunkirk (a guerra e o desejo do retorno ao lar) e Interestelar (a dilatação do tempo e o retorno a um mundo que já não se reconhece) do que com Homero.

Em vez de adaptar A Odisseia, Nolan a absorve para dentro de seu universo temático.

No entanto, o que mais me incomoda nessa adaptação são os personagens.

Esqueçam toda a polêmica envolvendo Elliot Page e Lupita Nyong’o.

O personagem mais profundamente transformado aqui não é Penélope, nem Telêmaco, nem Atena. É o próprio Odisseu.

Acredito, inclusive, que Lupita Nyong’o tenha sido bastante injustiçada pelas críticas. Em sua personagem, encontro muito mais ecos de Helena e Clitemnestra do que no Odisseu interpretado por Matt Damon encontro o herói homérico.

Não por culpa de Matt Damon, que está excelente, mas por culpa do personagem que lhe foi entregue.

Nem digo que seja um personagem ruim. Para mim, Damon interpreta um grande personagem. O problema é que esse personagem simplesmente não é Odisseu.

O Odisseu de Nolan é, em muitos aspectos, o anti-Odisseu.

Na tradição homérica, Odisseu é um homem de métis e hybris. Ele é inteligente, pragmático, furtivo, ambíguo, blasfemo e, principalmente, orgulhoso. Seu retorno para Ítaca não é uma peregrinação penitencial, mas uma extensão gloriosa de sua conquista. O sofrimento que enfrenta não nasce de um “sentimento interior” de culpa, mas do conflito permanente entre sua vontade e a “audácia” de um cosmos que lhe impõe limites.

Nada disso está presente no Odisseu de Nolan.

Seu protagonista é um homem melancólico, introspectivo, culpado e consumido pelo remorso. Toda a jornada parece um processo de expiação psicológica.

Há quem veja nisso uma espécie de cristianização do personagem: um homem esmagado pelo peso da consciência, cuja travessia assume contornos purgativos, confessionais e penitenciais.

Seria uma abordagem extremamente interessante. Se não fosse Odisseu.

Digo isso como católico: eu desejava o Odisseu mais pagão possível.

Como católico, sempre me fascinou perceber como os grandes mitos pagãos frequentemente convergem, sem o saber, para intuições que mais tarde seriam plenamente desenvolvidas pelo cristianismo. A Odisseia talvez seja um dos maiores exemplos disso. O rei ausente que um dia retornará; a espera paciente daqueles que permanecem fiéis; os pretendentes que usurpam o lugar legítimo do soberano; o tempo da expectativa, cujo fim ninguém conhece; a restauração da ordem através do retorno do verdadeiro rei. É impossível, para mim, não perceber aí um eco da esperança cristã da Parusia.

Tenho uma espécie de “concupiscência metafísica” ao observar essas convergências. Assim como os Reis Magos chegaram ao mesmo Cristo seguindo caminhos diferentes, também os grandes mitos parecem caminhar, às cegas, em direção a uma mesma verdade.

No entanto, infelizmente, também não encontrei isso no filme.

O que encontrei foi uma obra quase completamente moderna, fechada ao sobrenatural (cristão ou pagão) e profundamente desconfiada da própria ideia de mito. Os deuses deixam de existir como agentes objetivos da narrativa e passam a funcionar como alegorias, forças impessoais da natureza ou projeções psicológicas de um protagonista atormentado.

Como conseguiram reduzir Atena a uma simples alucinação?

Há, sim, pequenas concessões ao mito, mas quase como se o filme sentisse a obrigação de preservar alguns elementos da obra original, sem jamais se entregar verdadeiramente a eles.

Essa talvez seja minha principal divergência com Nolan.

Tenho a impressão de que ele não acredita na linguagem do mito. Ele parece sentir necessidade de traduzi-lo para categorias psicológicas, existenciais e racionalizáveis antes de levá-lo à tela. O problema é que o mito não pede tradução. Seu poder está justamente em apresentar a realidade tal como ela é (como bem pontua Mircea Eliade), e não em servir como um artifício para explicá-la como metáfora.

É por isso que sua Odisseia me parece, paradoxalmente, uma adaptação de Homero envergonhada de ser homérica.

Ela é escura, opaca, bruxuleante, pouco vitalista. Confunde escala com grandiosidade, solenidade com transcendência e alegoria com mito. Sempre que Homero aponta para o céu, Nolan parece querer apontar para a própria cabeça.

Nada disso impede que existam enormes qualidades cinematográficas. A direção é segura, a construção dramática é consistente, a fotografia é impressionante e algumas sequências alcançam uma força visual extraordinária. Nolan continua sendo um cineasta de enorme talento.

Talvez seja justamente por isso que minha decepção tenha sido maior.

Porque não vi um diretor incapaz de adaptar Homero. Vi um grande diretor interessado em colocar Homero na Cama de Procusto de sua própria visão de mundo.

No fim das contas, saí do cinema convencido de que assisti a um bom filme de Christopher Nolan, mas não a uma grande adaptação da Odisseia. Como obra autônoma, funciona admiravelmente. Como leitura de Homero, parece-me excessivamente moderna, excessivamente psicológica e excessivamente desconfiada do próprio mito.

É um bom filme.

Mas continua sendo, para mim, uma péssima adaptação.

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