Há discos que representam um refinamento de uma linguagem já estabelecida. Outros, porém, parecem rejeitar deliberadamente tudo aquilo que havia sido construído até então.

Dark Crystal, décimo álbum de estúdio de Minako Yoshida, lançado em 1989, pertence à segunda categoria.

Depois de uma década em que seu nome se tornou praticamente sinônimo do lado mais sofisticado e elegante do City Pop, Yoshida abandona boa parte dos elementos que definiam sua identidade musical. O groove exuberante, os arranjos orgânicos, o swing herdado da soul music e do jazz, tudo isso é deixado de lado para dar lugar a uma estética muito mais fria, econômica e artificial.

Em Dark Crystal, Minako abraça uma sonoridade construída sobre o Synth Pop, o Contemporary R&B, o Boogie e o chamado Techno Kayo.

Grande parte dessa identidade nasce do uso intenso do Fairlight CMI III, operado por Yasuo Kimoto, um sintetizador que integra sampler digital e sequenciamento de batidas, permitindo construir músicas a partir de blocos sonoros extremamente precisos.

Essa característica define toda a produção do disco.

Cada batida ocupa exatamente o espaço que deveria ocupar.

Tudo soa geométrico.

Essa mudança é particularmente interessante porque elimina justamente um dos aspectos mais marcantes da obra anterior de Minako Yoshida: o swing.

Em seus discos dos anos 1980, havia uma sensação permanente de fluidez. Em Dark Crystal, ela simplesmente desaparece.

As bases rítmicas são rígidas e mecânicas. Os sintetizadores desenham superfícies lisas, repetitivas e minimalistas.

Há poucos excessos, poucos ornamentos e praticamente nenhuma tentativa de soar “quente”.

Em vez disso, Yoshida parece interessada em explorar a beleza da artificialidade, substituindo a sensualidade, a energia e a exuberância performática que marcaram seus trabalhos anteriores.

O fascínio pelos sintetizadores digitais, pelas baterias programadas e pela redução dos arranjos ao essencial domina toda a estética do álbum.

O disco transmite uma curiosa sensação de exaustão. Não é um álbum explosivo, tampouco um convite imediato à pista de dança. Há uma contenção que faz com que toda essa instrumentação eletrônica adquira um caráter robótico e impessoal.

Na segunda ou terceira vez que eu ouvi, isso produz uma experiência singular. O disco não é exatamente melancólico. Também não chega a ser um álbum dançante. Permanece suspenso entre dois estados, encontrando sua identidade justamente nessa síntese.

A atmosfera mecânica do disco, entretanto, nunca engole completamente a cantora.

Seu timbre elegante flutua sobre essas estruturas sintéticas com uma leveza quase angélica, criando um contraste interessante. Enquanto os sintetizadores parecem máquinas programadas para executar padrões perfeitos, sua interpretação preserva pequenas inflexões, delicadezas e nuances emocionais que impedem o disco de se transformar em um exercício puramente tecnológico.

Talvez por isso seja, pra mim, um dos trabalhos mais difíceis da discografia de Minako Yoshida. Dark Crystal certamente não é seu disco mais acolhedor, tampouco o mais acessível.

Clique aqui para ouvir.

 

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