A síntese órfica

Poucos personagens da mitologia antiga sofreram tantas reinterpretações quanto Orfeu. Poeta, músico, amante, profeta, fundador religioso e viajante do mundo dos mortos, ele ocupa uma posição singular no imaginário do Mediterrâneo antigo. Sua figura atravessa séculos de tradição e aparece em narrativas frequentemente contraditórias entre si. Em algumas delas, Orfeu surge como o amante absoluto que desafia a própria morte para resgatar Eurídice. Em outras, aparece como reformador religioso, mestre dos mistérios e fundador de uma tradição espiritual que buscava a purificação da alma. Há ainda versões em que se torna uma figura quase xamânica, capaz de transitar entre mundos e adquirir conhecimentos vedados aos mortais comuns.

Essa multiplicidade de interpretações não é acidental. Cada época, cada corrente filosófica e cada tradição religiosa procurou reivindicar Orfeu para si. Sua memória tornou-se um campo de disputa simbólica, no qual diferentes concepções de amor, sabedoria, religião e transcendência procuraram se afirmar.

Um dos exemplos mais interessantes dessa disputa encontra-se em O Banquete, de Platão. Nessa obra, o filósofo realiza uma surpreendente inversão da imagem tradicional de Orfeu. O herói romântico que desafia o Hades transforma-se em um exemplo de covardia moral. Essa crítica contundente aparece logo no início da obra, no discurso de Fedro, o primeiro dos convivas a expor suas ideias sobre a natureza de Eros. Fedro sustenta que o verdadeiro amor inspira coragem, virtude e disposição para morrer por quem se ama. Para demonstrar sua tese, ele contrapõe três personagens míticos: Alceste, Aquiles e Orfeu.

Hércules lutando contra a morte pelo corpo de Alceste - Frederic Leighton
Hércules lutando contra a morte pelo corpo de Alceste – Frederic Leighton

Na mitologia grega, Alceste era uma princesa célebre por sua beleza e bondade. Casou-se com o rei Admeto, que recebeu de Apolo uma concessão extraordinária das Moiras: poderia escapar da morte caso encontrasse alguém disposto a morrer em seu lugar. Os pais idosos do rei recusaram-se a fazê-lo. Alceste, porém, aceitou voluntariamente o sacrifício.

Fedro a coloca no mais alto grau da nobreza moral. Seu amor foi tão profundo que superou até mesmo os vínculos de sangue. Enquanto os pais biológicos de Admeto recusaram o sacrifício, uma esposa, na plenitude de sua juventude, ofereceu a própria vida.

Os deuses ficaram tão admirados com sua coragem que permitiram que sua alma retornasse do Hades ao mundo dos vivos. Para Platão, Alceste representa o sacrifício deliberado e a forma mais elevada do amor.

Aquiles ocupa a segunda posição nessa hierarquia moral.

Filho da deusa Tétis e do mortal Peleu, ele conhecia a profecia que determinava seu destino: se permanecesse em Troia, morreria jovem, mas conquistaria glória eterna; se retornasse para casa, viveria longamente, embora fosse esquecido.

Estátua de Aquiles Moribundo (Achilles thniskon), localizada nos jardins do palácio Achilleion na ilha de Corfu, na Grécia
Estátua de Aquiles Moribundo (Achilles thniskon), localizada nos jardins do palácio Achilleion na ilha de Corfu, na Grécia

Quando Patroclo foi morto por Heitor, Aquiles escolheu conscientemente seguir o caminho da morte. Sabia que sua vingança o condenaria, mas, mesmo assim, retornou ao combate.

Por sacrificar a própria vida em nome da lealdade ao companheiro morto, foi recompensado com um lugar entre os Bem-Aventurados. Para Platão, ele simboliza a fidelidade absoluta, capaz de ultrapassar os limites da própria existência.

Por fim, temos Orfeu.

O músico trácio era conhecido por sua capacidade sobrenatural de encantar animais, árvores e pedras com o som de sua lira. Quando Eurídice morreu após ser picada por uma serpente, ele realizou aquilo que nenhum mortal ousara fazer: desceu vivo ao mundo dos mortos.

Sua música comoveu Hades e Perséfone, que aceitaram libertar Eurídice sob uma única condição. Orfeu deveria caminhar à frente dela e não poderia olhar para trás até deixar completamente o reino subterrâneo.

Como é sabido, ele fracassou no último instante.

No entanto, Fedro interpreta essa história de maneira radicalmente diferente daquela que se tornou popular ao longo dos séculos.

Para ele, Orfeu não é um trágico herói do amor. É um covarde.

Enquanto Alceste aceitou morrer por amor e Aquiles abraçou conscientemente a própria morte em nome da lealdade, Orfeu procurou contornar o destino. Em vez de morrer para se reunir a Eurídice, tentou penetrar vivo no Hades e retornar vivo de lá. Desejou o amor, mas recusou o sacrifício.

Segundo Fedro, os deuses perceberam essa tentativa de escapar ao preço da verdadeira devoção. Por isso, concederam-lhe apenas uma ilusão de Eurídice e permitiram posteriormente sua morte pelas mãos das Mênades.

Podemos dizer que essa interpretação revela muito mais sobre Platão do que sobre o próprio mito.

A filosofia platônica frequentemente manifesta desconfiança em relação aos poetas tradicionais. Para Platão, a arte poética produz imagens e simulacros que podem afastar os homens da verdade. Ao transformar Orfeu, o maior dos músicos, em um exemplo de insuficiência moral, Platão não está simplesmente reinterpretando um mito. Está disputando a memória de Orfeu e realizando uma crítica indireta à autoridade cultural da tradição poética.

Orfeu e Eurídice, por Alberto Savinio
Orfeu e Eurídice, por Alberto Savinio

Gostaria de apresentar também o Orfeu da tragédia perdida As Bassárides, de Ésquilo, que é, pessoalmente, a minha preferida.

Nessa versão, a tragédia de Orfeu não decorre principalmente de sua relação com Eurídice, mas de uma transformação ou de uma conversão religiosa.

Inicialmente, Orfeu era um devoto de Dionísio. Contudo, sua descida ao mundo dos mortos alterou radicalmente sua visão espiritual.

Ao penetrar vivo no Hades, ele experimentou a escuridão absoluta. Conheceu o luto, a perda e a realidade da morte de forma direta. Viu aquilo que os mortais não deveriam ver.

Quando retornou ao mundo dos vivos sem Eurídice, passou a rejeitar tudo aquilo que lhe recordava as trevas do submundo.

Foi nesse contexto que voltou sua devoção para o Sol.

Apolo e Hélio passaram a representar a ordem, a luz, a pureza e a transcendência. Em oposição às sombras do Hades, o culto solar oferecia um caminho de purificação.

Orfeu abandonou então o culto dionisíaco, que era um culto “lunar” ou “notívago”.

Dionísio não era apenas o deus do vinho e da festa. Em muitas tradições religiosas gregas, era também uma divindade profundamente ligada ao mundo subterrâneo, ao êxtase, ao transe e à dissolução dos limites da personalidade.

A resposta de Dionísio a essa “traição” foi devastadora.

Tomadas pelo vinho, pela música e pela possessão divina, as Mênades atacaram Orfeu no monte Pangeu. Em um frenesi sagrado, despedaçaram-no vivo através do sparagmos, o ritual de desmembramento.

Orfeu havia escolhido a ordem apolínea contra o caos dionisíaco. Ao despedaçá-lo, Dionísio demonstrava que nenhuma tentativa de impor forma e harmonia poderia eliminar completamente as forças irracionais da existência.

O corpo do músico foi destruído. No entanto, sua voz permaneceu.

Após o assassinato, as Mênades lançaram sua cabeça e sua lira no rio Hebro. A cabeça de Orfeu continuou cantando enquanto flutuava rio abaixo, até chegar à ilha de Lesbos.

Ali, depositada em uma caverna, passou a emitir profecias tão precisas que começou a rivalizar com os próprios oráculos de Apolo.

Segundo a tradição, o próprio Apolo, o deus para o qual ele havia se convertido, precisou intervir pessoalmente para silenciá-la.

Essa relação entre Apolo, Dionísio e Orfeu é particularmente interessante.

Mircea Eliade observa que Orfeu surge sob os signos conjugados de Apolo e Dionísio, e que o próprio orfismo, o culto a Orfeu, se desenvolveu nessa mesma direção.

Podemos dizer que o orfismo possui substância dionisíaca e método apolíneo.

Ele herda de Dionísio a crença na imortalidade da alma, a experiência extática, a catábase e a busca pela libertação espiritual. De Apolo, recebe a purificação, o ascetismo, a música harmônica e a disciplina interior.

Pode-se dizer que o orfismo procura domesticar o êxtase por meio da ordem.

Nesse sentido, o destino de Orfeu torna-se profundamente simbólico. Ele tenta unir duas forças religiosas aparentemente opostas e acaba destruído justamente por essa tentativa.

Ele morre de forma dionisíaca, despedaçado pelas Mênades. Depois, é silenciado de forma apolínea, pela imposição do limite e da ordem.

Para o cidadão grego comum, e eu estou com o cidadão grego comum, contudo, Orfeu continuava sendo um herói trágico e romântico, alguém que ousou desafiar o próprio Hades por amor – além de ser um símbolo trágico (e, talvez, impossível) da síntese entre ordem e caos.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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