O álbum Town Beat, do artista japonês KIRINJI, projeto solo de Takaki Horigome, lançado em 9 de janeiro de 2026, tem tudo para figurar entre os melhores discos do ano.
Sim, ainda estamos no primeiro mês de 2026 enquanto este texto é escrito, e mesmo assim já é possível antecipar sua presença nessa lista.
Trata-se do 17º álbum de estúdio da banda e do primeiro lançamento em mais de dois anos desde Steppin’ Out (2023).
Musicalmente, Town Beat transita com naturalidade entre City Pop, Jazz Pop, Indie Pop, Adult Contemporary e Jazz Fusion.
É um disco que convida a uma escuta contínua, porém relaxada, funcionando tanto como trilha sonora para o cotidiano quanto como objeto de atenção plena, quando ouvido com mais cuidado.
Nada aqui soa invasivo, abrupto ou cansativo. Pelo contrário, tudo parece cuidadosamente desenhado para fluir. Há um diálogo orgânico entre as vozes e os arranjos, como se cada elemento estivesse ali para cumprir uma função específica e precisa, nunca para disputar atenção.
A apresentação visual do álbum segue essa mesma lógica. A fotografia de Rumi Ando, aliada ao design de Yorihiro Oshima, traduz com precisão a atmosfera sonora de Town Beat. A arte não busca ser excessivamente conceitual ou chamativa. Ela atua como complemento da música, reforçando a ideia de um disco arquitetado com rigor, mas sem ruídos desnecessários.
O grande mérito de Town Beat está justamente no equilíbrio. Não é um disco simples, mas nada soa exagerado. Os elementos são variados, porém sempre bem dosados, e os arranjos ocupam exatamente o espaço que devem ocupar. Horigome demonstra, mais uma vez, seu domínio da forma, organizando camadas sonoras com uma precisão que transmite conforto ao ouvinte.
Ele se mostra um verdadeiro mestre na orquestração de timbres, transitando entre cordas, metais, sintetizadores e batidas modernas sem jamais soar excessivo. Há uma sensação constante de respiro na música. Cada instrumento tem sua função clara, seu momento de entrar e de recuar, criando uma escuta arejada, agradável e envolvente.
Dentro desse conjunto extremamente coeso, algumas faixas naturalmente se destacam. Unseen Dancer e LEMONADE, ambas com a participação da cantora e multi-instrumentista Tomomi Oda, trazem um refinamento adicional às texturas vocais e aos arranjos, ampliando ainda mais a sensação de leveza e sofisticação do álbum. Já What a Night se impõe pela elegância melódica e pelo groove contido, enquanto Flush! Flush! Flush! chama atenção por sua linha de baixo simplesmente irresistível, uma das mais marcantes do disco.
Ainda assim, vale reforçar que esses destaques não diminuem o restante do repertório. Town Beat é um álbum sem faixas descartáveis: todas as músicas mantêm um nível alto de qualidade, contribuindo para uma experiência consistente e fluida do início ao fim.
A estética sonora dialoga diretamente com o City Pop japonês dos anos 1970 e 1980, evocando nomes como Tatsuro Yamashita e Toshiki Kadomatsu, especialmente nas linhas de baixo marcantes e nas harmonias vocais suaves. Ainda assim, Town Beat não soa como um exercício nostálgico. Essas referências funcionam como base para algo vivo, contemporâneo e extremamente acessível.
As influências do jazz se manifestam nas progressões harmônicas sofisticadas, enquanto a suavidade melódica do AOR garante que as faixas sejam musicalmente ricas, mas nunca difíceis de ouvir.
Horigome também demonstra atenção ao presente ao incorporar elementos de Neo Soul, Funk, Disco e até Eletrônica Lo-Fi, sempre de maneira orgânica. Nada parece forçado ou deslocado. Esses gêneros entram como temperos sutis, enriquecendo a textura geral do álbum e reforçando sua coesão.
Ao final, Town Beat se consolida como um trabalho que entende que sofisticação não precisa vir acompanhada de complexidade excessiva, e que boa música também pode ser gentil.