Candomblé (Live at Bimhuis, Amsterdam) é um disco ao vivo da Lucas Santana Grand Orchestra, lançado em janeiro de 2026 a partir de um concerto realizado em Amsterdã, em janeiro de 2025.

O projeto propõe uma aproximação entre a linguagem da big band orquestral e referências da música brasileira, sobretudo aquelas associadas às matrizes afro-brasileiras. Essa proposta se manifesta menos como uma transposição direta de formas tradicionais e mais como um diálogo estético e conceitual entre universos musicais distintos.

Participam do disco Lucas Santana (sax alto), Efraim Trujilo (sax tenor), Jessie Breve (sax barítono), Alvaro Jimenez (trompete), Suzan Veneman (trompete), Pablo Martinez (trombone), Timothy Banchet (piano), Matheus Nicolayewsky (baixo), Yoràn Vroom (bateria) e Yariv Vroom (percussão). O concerto contou ainda com performances de dança de Ranny Lee Joy e Guilherme Duarte, ampliando o caráter performático da apresentação.

As faixas recebem nomes de Orixás, estabelecendo um eixo temático claro. Musicalmente, porém, a relação com o Candomblé se dá de maneira indireta. As influências brasileiras presentes no disco se aproximam mais do maracatu, do samba e da música armorial do que propriamente da música de terreiro.

Nesse sentido, a música do Candomblé, em seu aspecto litúrgico, aparece mais como uma ressonância conceitual do que como estrutura musical efetivamente incorporada aos arranjos. O elemento mais diretamente associado a esse universo está na percussão, que desempenha papel relevante na sustentação rítmica, especialmente pela presença recorrente do atabaque na execução de Yariv Vroom.

Ainda assim, o instrumento é integrado ao conjunto de forma equilibrada, sem assumir uma centralidade absoluta. Essa opção reforça a coesão sonora da big band, mas, por outro lado, reduz a ênfase em elementos rítmicos que poderiam estreitar o vínculo com o universo ritual da religião.

Do ponto de vista estilístico, o disco se aproxima de um jazz de orientação latina e afro-caribenha. Os arranjos privilegiam o trabalho de seções, as variações harmônicas e as dinâmicas coletivas, resultando em um som consistente e bem articulado. Em alguns momentos, contudo, a identidade afro-brasileira não se impõe de maneira tão enfática quanto o conceito sugere.

Há poucos elementos melódicos ou de swing diretamente exploráveis a partir da música do Candomblé, cuja lógica musical é mais cíclica, repetitiva e ritualística. A transposição desse repertório simbólico para uma big band instrumental envolve, portanto, limitações claras. A abordagem adotada evita soluções artificiais ou meramente ilustrativas, mas também estabelece um distanciamento que torna o conceito menos audível no plano estritamente musical.

Confesso que, nesse equilíbrio, eu esperava ouvir mais Candomblé e menos big band.

Ainda assim, Candomblé (Live at Bimhuis, Amsterdam) se apresenta como um trabalho refinado, sustentado por arranjos bem estruturados e execução segura. Um ótimo disco.

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter

Recomendado

A Lenda do Mapinguari - Um Yokai Brasileiro
Desvendando o Mapinguari: Entre Mito e Realidade na Amazônia

Podcast Recente

Rolar para cima