Mircea Eliade foi historiador das religiões, fenomenólogo da religião e também escritor de romances e contos. Estudou filosofia, aprendeu sânscrito, pesquisou profundamente a tradição indiana e dedicou trabalhos importantes ao ioga, ao xamanismo, ao simbolismo e às relações entre o sagrado e o profano. Depois da Segunda Guerra Mundial, estabeleceu-se no Ocidente e consolidou sua carreira acadêmica nos Estados Unidos. Entre 1956 e 1983, foi professor e chefe do Departamento de História das Religiões da Universidade de Chicago.

Seu interesse pela religião nasceu, em parte, do contato constante com um ambiente que considerava incomodamente materialista. Havia uma certa tendência acadêmica, ainda hoje persistente, de explicar a religião exclusivamente por fatores econômicos, políticos, psicológicos ou sociológicos. Eliade não negava a importância desses fatores. O que ele parecia resistir em aceitar era a ideia de que eles fossem suficientes para esgotar o significado da experiência religiosa.

Sua vida intelectual foi, em grande medida, dedicada a compreender o fenômeno religioso em seu próprio plano de significação, isto é, como experiência do sagrado.

Dois conceitos ajudam a resumir sua contribuição. O primeiro é a dialética do sagrado e do profano: o sagrado não aparece necessariamente fora do mundo, mas pode manifestar-se em objetos, lugares, pessoas, acontecimentos e gestos ordinários. O segundo é a figura do homo religiosus, o ser humano que interpreta o mundo a partir de símbolos e de referências ao transcendente.

A religião, nesse quadro, não é apenas um conjunto de crenças privadas. Ela oferece uma estrutura para distinguir o real do aparente, o significativo do indiferente, o exemplar do acidental.

Mito e Realidade, de Mircea Eliade, é uma reunião de estudos sobre a estrutura, a função e a permanência dos mitos. Ao longo do livro, Eliade discute a estrutura dos mitos; o prestígio das origens; os mitos e ritos de renovação; as relações entre escatologia e cosmogonia; a possibilidade de superar o tempo; as relações entre mitologia, ontologia e história; os mecanismos de memória e esquecimento; a grandeza e a decadência dos mitos; e, uma das partes mais interessantes para mim, as sobrevivências e camuflagens do mito na modernidade.

A intenção principal do livro é defender a ideia de que o mito não deve ser entendido simplesmente como mentira, fantasia ou narrativa infantil. Para Eliade, o mito é uma história sagrada, relacionada a acontecimentos primordiais que, dentro da experiência religiosa, possuem uma realidade muito maior do que a nossa concepção moderna de “ficção” permite imaginar.

O mito narra uma realidade acontecida em um tempo primordial e mostra como essa realidade se articula com a nossa própria existência temporal, com aquilo que acontece no mundo cotidiano, inclusive em sociedades modernas e aparentemente dessacralizadas.

Eliade explica, de maneira bastante didática, que os mitos podem perder sua linguagem religiosa explícita e, ainda assim, reaparecer em narrativas políticas, filosóficas, literárias ou sociais. É justamente aí que entra a ideia de camuflagem que mencionei anteriormente: o mito deixa de ser reconhecido como mito, mas continua oferecendo imagens de origem, queda, redenção, renovação, ordem, caos e fim.

Se há uma coisa que ficou muito clara para mim lendo este livro, e também outros trabalhos de Eliade, é essa ideia aparentemente simples, mas bastante poderosa: o mito não desaparece quando uma cultura deixa de acreditar literalmente nos deuses. Ele se transforma.

Podemos considerar, por exemplo, o marxismo e certas formas de existencialismo como estruturas que preservam elementos tradicionalmente associados às narrativas religiosas, ainda que deslocados para um horizonte secular. O marxismo pode ser lido como uma narrativa de origem, queda, alienação, sacrifício, redenção e reconciliação final: o comunismo primitivo corresponderia ao paraíso, a propriedade privada à queda, o proletariado ao agente redentor, a revolução ao momento de ruptura e a sociedade sem classes à salvação histórica.

O existencialismo, especialmente em suas formulações ateias, preservaria outros temas tradicionalmente religiosos, como liberdade, responsabilidade, escolha e angústia, deslocando-os do interior de uma teologia para a existência humana sem Deus.

É possível, portanto, que uma das primeiras grandes criações da religião não tenha sido simplesmente um deus, mas o próprio ser humano capaz de reconhecer o sagrado no ordinário.

A partir da religião, o homem deixa de encontrar apenas objetos no mundo e passa a encontrar significados. O mundo deixa de ser uma coleção de acontecimentos isolados e passa a apresentar uma ordem, um centro e uma hierarquia de valores.

É a própria experiência do sagrado que produz noções de realidade, verdade e significação. Quando um lugar, uma montanha, uma árvore, um animal ou um acontecimento se torna símbolo de uma realidade transumana, o mundo passa a ser percebido como uma linguagem. A natureza deixa de ser muda: seus ritmos e suas formas podem ser interpretados como sinais de uma ordem maior.

Podemos afirmar, então, que não haveria civilização tal como a conhecemos sem religião e mito. Desde os tempos paleolíticos, o mito oferece modelos exemplares. É ele que torna possível agir diante do desconhecido. O herói que atravessou o oceano, o deus que venceu o caos ou o ancestral que fundou uma comunidade fornecem um esquema para novas expedições, fundações e conquistas.

O território estranho pode ser transformado em habitação porque o gesto cosmogônico já fornece uma forma de organizar o espaço.

Não apenas o espaço, mas também o tempo.

O ritual funciona como uma espécie de contestação simbólica da irreversibilidade do tempo. Ao reencenar um acontecimento primordial, a comunidade não está apenas preservando uma lembrança. Ela procura recuperar uma possibilidade de renovação. A repetição religiosa, segundo Eliade, é uma maneira de afirmar que o passado não precisa permanecer perdido e que a existência pode ser recomeçada.

Nesse sentido, o mito não é apenas uma explicação para aquilo que aconteceu no princípio. Ele é uma forma de tornar novamente presente aquilo que aconteceu no princípio.

O próprio homem, em certo sentido, foi inventado pela religião.

Em suma, a força de Mito e Realidade, que é um livro bastante curto e incrivelmente denso, está em tomar o mito como uma forma séria de pensamento. Eliade não o reduz a um erro intelectual que a modernidade teria finalmente corrigido. Ele mostra que os mitos respondem a problemas duradouros: como começar de novo, como suportar a morte, como fundar uma comunidade, como transformar um espaço desconhecido em mundo e como atribuir valor a acontecimentos que, isoladamente, pareceriam apenas contingentes.

Eliade pode ser criticado, entretanto, pela velocidade com que atravessa culturas e períodos históricos muito distintos, tratando símbolos semelhantes como manifestações de uma mesma estrutura. Existe aí o risco de transformar diferenças culturais importantes em simples variações de um mesmo modelo.

Essa crítica, porém, não torna inútil o método comparativo. Apenas exige que ele seja utilizado com maior controle e atenção às particularidades de cada tradição. E acredito que o próprio Eliade estava bastante consciente desse problema.

O que permanece, depois da leitura, é uma pergunta que considero muito mais interessante do que a velha oposição entre mito e realidade: o que acontece com o mito quando deixamos de acreditar que ele é mito?

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