Existe algo profundamente admirável em como o Converge continua operando em estado de urgência depois de mais de três décadas de carreira. Love Is Not Enough, o 11º disco de estúdio do grupo, chega quase como uma reafirmação dessa identidade. Após quase dez anos sem um álbum inteiramente inédito, o Converge retorna sem qualquer interesse em monumentalizar o próprio legado. Pelo contrário: escolhe a concisão, a velocidade e a combustão imediata.

É inevitável pensar no intervalo entre The Dusk in Us (de 2017) e este novo trabalho. Nesse período, os integrantes pareceram explorar diferentes possibilidades emocionais e estéticas em projetos paralelos. O caso mais evidente foi Bloodmoon: I, colaboração com Chelsea Wolfe, Ben Chisholm e Stephen Brodsky, um disco muito mais expansivo, atmosférico e contemplativo do que o material tradicional da banda. Aquela experiência parecia apontar para uma possível dilatação da linguagem do Converge. Mas Love Is Not Enough segue pelo caminho oposto. Em vez de ampliar o espaço das composições, a banda decide comprimir tudo.

E é justamente aí que o disco se torna fascinante para mim.

Muitas bandas extremas, especialmente depois de décadas de carreira, começam a associar ambição com grandiosidade. As músicas ficam maiores, os riffs mais repetidos, as atmosferas mais insistentes. Existe uma crença quase automática de que maturidade significa expansão. O Converge rejeita completamente essa lógica. Com apenas 31 minutos e 7 segundos, Love Is Not Enough é o disco mais curto da discografia da banda, mas em nenhum momento ele parece pequeno. Pelo contrário: soa densíssimo.

O que mais me impressiona aqui é a capacidade composicional do grupo de condensar ideias sem sacrificar impacto ou complexidade. Em menos de um minuto, uma música pode apresentar dois ou três riffs excelentes, mudar completamente de dinâmica, desacelerar para uma seção sufocante e ainda encontrar espaço para um detalhe melódico ou uma textura atmosférica. É quase como se o Converge tivesse desenvolvido uma linguagem própria de montagem musical, algo mais próximo da edição frenética de cinema do que da estrutura tradicional do metal ou do hardcore.

Isso fica muito evidente em faixas como “Beyond Repair” (que é apenas uma faixa atmosférica no meio do disco) e especialmente “Giled Cage”, talvez a minha música favorita do disco. Há uma fluidez absurda na maneira como os riffs se encadeiam. Nada parece arbitrário ou puramente caótico. Cada mudança brusca de andamento, cada interrupção, cada explosão repentina existe porque a banda entende exatamente o momento de abandonar uma ideia antes que ela se desgaste. Existe um senso raro de economia aqui. O Converge sabe que um riff não precisa durar quarenta segundos para ser memorável. Às vezes bastam oito.

Essa abordagem cria um tipo de intensidade muito particular. Em vez de construir atmosfera através da repetição hipnótica, a banda trabalha por acúmulo de tensão e colisão de ideias. O ouvinte quase não tem tempo de se acomodar dentro de uma seção antes de ser lançado em outra direção. E o mais impressionante é que isso não transforma o disco em algo fragmentado. Existe uma coerência emocional muito forte costurando tudo.

Musicalmente, o álbum continua reafirmando aquela mistura singular que o Converge aperfeiçoou ao longo da carreira: metalcore, hardcore punk e sludge metal atmosférico fundidos de maneira orgânica. Os riffs carregam ecos de Slayer e Napalm Death, mas filtrados pela linguagem própria que o Converge construiu desde os anos 90. Os solos surgem de forma angular e quase desfigurada, enquanto tudo é sustentado por uma poderosa cozinha de baixo e bateria.

Os vocais de Jacob Bannon continuam soando como pura erosão emocional. Mesmo depois de tantos anos, ele ainda consegue transmitir uma sensação física de desgaste e urgência que poucas bandas contemporâneas alcançam.

No fim, saio desse álbum com a impressão de que o Converge atingiu um nível raríssimo de eficiência artística. Não eficiência no sentido mecânico ou calculado, mas na capacidade de extrair o máximo de expressão possível de cada segundo de música. Poucas bandas conseguem condensar tanta ideia interessante em tão pouco tempo sem que o resultado soe apressado ou superficial.

“Giled Cage” e “We Were Never the Same” talvez sejam os melhores exemplos disso. São músicas que parecem maiores do que realmente são. Terminam deixando a sensação de que atravessamos algo muito mais extenso, emocionalmente pesado e esteticamente ambicioso do que sua duração sugere.

E talvez essa seja a grande força de Love Is Not Enough: ele entende que intensidade não depende de excesso. Às vezes, tudo o que uma banda precisa fazer é saber exatamente quando incendiar uma ideia e exatamente quando abandoná-la antes das cinzas esfriarem.

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