Goldstar, sexto álbum da banda Imperial Triumphant, ultrapassa o domínio habitual do metal extremo e se apresenta como uma forma híbrida que articula Black/Death Metal experimental, jazz dissonante, música sinfônica e estruturas rítmicas do metal progressivo.

Trata-se de um álbum conceitual sobre Nova York vista como metáfora teológico-política, uma Babilônia moderna onde poder, luxo e decadência coexistem como espetáculo e ruína.

Segundo a lógica interna do disco, a cidade deixa de ser cenário para assumir o papel de ídolomonstro ou divindade falsa.

O disco combina três matrizes estéticas fundamentais: o expressionismo alemão, o cyberpunk e a teologia veterotestamentária.

Essas referências não são ornamentais. A banda ergue a cidade de Nova York como uma catedral distorcida, onde Metropolis de Fritz Lang e o Livro de Ezequiel convergem em um único bloco.

A estética expressionista é o ponto de partida mais evidente, já indicada na capa inspirada na Maschinenmensch de Metropolis.

No filme de Lang, a cidade é organismo vivo composto de geometrias delirantes e arquitetura opressiva. Em Goldstar, essa lógica é transposta para o som. Os metais orquestrais funcionam como sirenes urbanas, enquanto o black metal opera como engrenagem subterrânea.

Interrupções bruscas, gestos exagerados, dissonâncias sistemáticas e elementos de Djent produzem uma gramática musical que deforma a realidade para expor seu núcleo patológico.

Os metais, especialmente trompetes e trombones, tornam-se equivalentes sonoros das diagonais expressionistas, criando cortes e clarões que iluminam a violência estrutural da metrópole.

A abertura com “Eyes of Mars” estabelece o ambiente imagético do álbum. Riffs incisivos e bateria trovejante se combinam a metais mixados como sirenes civis, evocando o caos do quotidiano.

O cruzamento entre Black Metal e arranjos orquestrais cria uma densidade claustrofóbica em que o caos é meticulosamente coreografado.

A segunda faixa, “Gomorrah Nouveaux”, desloca o eixo para um registro avant-garde explícito, sustentado por polirritmia, métricas irregulares e harmonia dissonante. O groove de baixo, com inclinação jazzy, aproxima a faixa de linhagens modernistas do século XX, em que a dissonância não interrompe, mas organiza.

Em “Lexington Delirium”, com participação de Tomas Haake (Meshuggah), a banda aprofunda sua arquitetura rítmica. O encontro entre DoomGothic e Djent, atravessado por intervenções cinematográficas de metais, reforça a dimensão expressionista e ritualística do álbum.

“Hotel Sphinx” (minha faixa favorita) intensifica o jogo entre instabilidade e contemplação. Riffs em tremolo acelerado e ritmos desconcertantes produzem vertigem contínua, abrindo espaço para um interlúdio de sintetizador melancólico, fúnebre e noir, que dialoga com o post-punk e a música ambiente etérea.

O interlúdio experimental “NEWYORKCITY”, com Yoshiko Ohara (Bloody Panda), funciona como retrato sonoro da metrópole. A performance vocal, um grito que parece expelir a alma, ressignifica a cidade como entidade devoradora, aproximando expressionismo e cyberpunk por meio da dissolução do sujeito na arquitetura.

A faixa-título, “Goldstar”, apresenta uma torção estética inesperada: uma vinheta em estilo barbershop quartet reminiscente de jingles publicitários do início do século XX. Ela atua como antídoto ilusório ao caos de “NEWYORKCITY”, funcionando como anestesia ideológica e mentira melódica. Esse contraste cria a dialética barroca do álbum, na qual brutalidade é sucedida por conforto fabricado e desespero é substituído por sedação. A letra da música é uma propaganda de cigarros da marca “Goldstar”.

Em “Pleasuredome”, com Dave Lombardo e Tomas Haake, essa dialética atinge o ápice. A teia rítmica formada pelos dois bateristas revela uma complexidade exuberante, ampliada pela incorporação de ritmos inspirados no Maracatu brasileiro (Yeah, Brazil Mentioned!). Essa fusão desloca o metal extremo para uma zona transcultural que dialoga com tradições afro-atlânticas e com a vanguarda jazzística. O resultado é uma peça carnal e ritualística, em que a cidade se torna templo do desejo. A letra, com versos como “On the hunt for flesh of form” e “Blood of passion flow to the apex”, reforça a dimensão teológico-corpórea do disco ao reinterpretar a carne como campo de tensão entre transgressão e sacralidade. O videoclipe, marcado pela estética de cabaré da República de Weimar, sublinha o diálogo com o expressionismo decadente do período entre guerras.

Por fim, “Industry of Misery” condensa a filosofia do álbum. A metrópole é representada como máquina de sofrimento movida por exploração econômica, cleptocracia e violência sistêmica. Se o disco oscila entre ritual e ruína, esta faixa final devolve a Nova York sua condição simbólica de dispositivo teológico-político cujo produto é miséria humana.

O expressionismo no disco não aparece como citação, mas como método. Trata-se de revelar a verdade emocional da metrópole por meio da distorção, da exaustão e do colapso. A paisagem sonora funciona como chiaroscuro urbano, não de luz e sombra, mas de riqueza e degradação, de grandiosidade arquitetônica e miséria humana.

Essa estética já distorcida se entrelaça naturalmente ao imaginário cyberpunk, especialmente ao paradoxo high class, low life, entendido como a convivência do luxo com a decadência moral. Faixas como “Gomorrah Nouveaux” e “Pleasuredome” retratam uma alta classe que vive em baixa vida, ocupando camarotes de decadência perfumada. O foco não está na exuberância tecnológica, mas no excesso moral envolto em opulência Art Nouveau.

A dimensão veterotestamentária se expressa na crítica ao luxo ostentatório, à corrupção sistêmica e à idolatria, temas centrais de Isaías, Jeremias e Ezequiel. Faixas como “Gomorrah Nouveaux” e “Rot Moderne” funcionam como parábolas urbanas. Nova York assume a função simbólica da antiga Babilônia, simultaneamente espaço real e alegoria moral. Como nos profetas, a cidade é denunciada não por pecados isolados, mas por estruturar uma economia do excesso que converte pessoas em resíduos.

olho de Marte e a mão do Carma guiando a roda, imagens evocadas na primeira faixa, funcionam como presságios seculares e ecoam advertências proféticas que assombram a cidade.

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