O álbum Lonely People With Power, sexto trabalho de estúdio do Deafheaven, lançado em 2025, foi amplamente reconhecido como um dos discos mais relevantes do ano.

Não é o primeiro contato que tenho com a banda, mas é a primeira vez que me proponho a escrever sobre ela, o que exige, ainda que brevemente, situá-la.

Desde Sunbather (2013), um disco de metal extremo de capa cor-de-rosa (que absurdo, né?), o Deafheaven ocupa uma posição incômoda dentro do black metal. Trata-se de uma banda que, ao mesmo tempo em que se insere no gênero, tensiona seus limites. Não por acaso, atrai a rejeição dos setores mais puristas. Sua estética, distante dos códigos visuais mais tradicionais, contribuiu para isso: camisetas pretas básicas, jeans, cabelos arrumados.

Daí emergem rótulos previsíveis como “hipster” ou “metal para quem não gosta de metal”, bem como a acusação de que haveria ali uma tentativa de traduzir o black metal para um público indie ou alternativo.

As críticas mais recorrentes orbitam a ideia de um som “higienizado”.

Para esses ouvintes, o blackgaze (estilo que o Deafheaven se propõe a fazer) operaria uma espécie de assepsia do gênero, removendo sua dimensão crua, perigosa e misantrópica, substituindo-a por uma sensibilidade emocional associada ao post-rock.

Para mim, isso é ótimo.

Poucas coisas me desagradam mais do que o black metal em sua forma mais tradicional, e poucas me interessam tanto quanto as suas derivações.

Black metal, para mim, é igual punk: só gosto do pós.

Assumo, portanto, o lugar que frequentemente se busca ridicularizar. Eu prefiro essa abordagem mais melódica, arejada e formalmente elaborada.

Em termos musicais, Lonely People With Power é um disco que exemplifica como o black metal pode ser reconfigurado a partir da incorporação de texturas atmosféricas oriundas do shoegaze e do post-rock.

O que emerge não é uma negação do gênero, mas uma reorganização de seus elementos.

O som do Deafheaven é ancorado em vocais rasgados, baterias rápidas e consistentes e guitarras densamente distorcidas. No entanto, esses elementos são atravessados por uma espacialidade construída por reverb e delay, que desloca o foco da nota individual para o campo sonoro como um todo. Forma-se, assim, uma wall of sound em que as notas sangram umas nas outras, dissolvendo a rigidez do riff em uma continuidade quase amorfa: mais do que sequência, uma frequência; mais do que estrutura, um zumbido harmônico e fantasmagórico.

Essa dimensão sonora encontra correspondência nas letras, igualmente voltadas para a introspecção, o isolamento e a desconexão. Distante das provocações mais juvenis que marcaram a gênese do black metal, George Clarke, principal compositor da banda, conduz uma investigação mais madura. Seus temas orbitam obsessões por controle, autovigilância, rupturas familiares, masculinidade, finitude, morte e desumanização.

Há, no álbum, uma ideia recorrente: a de que a ausência de vínculos reais, sejam comunitários ou íntimos, conduz ao preenchimento do vazio por experiências efêmeras e, frequentemente, autodestrutivas. Essa estrutura temática encontra eco na própria arquitetura do disco. São 12 faixas, número que Clarke associa diretamente aos 12 passos de programas de recuperação.

Durante a produção, ele celebrava sete anos de sobriedade, um dado que não se apresenta de forma confessional, mas que atravessa o trabalho como princípio organizador.

A experiência de escuta, por sua vez, resiste à fragmentação. Trata-se de um disco que não se oferece facilmente à lógica da faixa isolada. As composições são longas, marcadas por transformações graduais, e produzem um efeito de desorientação temporal: perde-se a nitidez de onde a música começa ou para onde se dirige.

Para quem não está acostumado a esse tipo de sonoridade, a experiência inicial pode ser cansativa, até mesmo opaca. Foi assim comigo. Há uma certa resistência do ouvido diante dessa massa contínua, dessa forma que se recusa a se organizar de maneira imediata. No entanto, à medida que essa estranheza se dissipa e o ouvido aprende a habitar esse espaço, algo se transforma: aquilo que antes afastava passa a atrair. E, então, o que antes era um ruído indistinto se converte em imersão.

O instrumental, nesse contexto, opera como um tapete sonoro contínuo. Os vocais, frequentemente “enterrados” na mixagem, não se impõem como centro, mas como mais uma camada nesse tecido denso.

Há, nisso tudo, uma forma particular de beleza. Não uma beleza evidente ou imediata, mas algo que emerge precisamente dessa diluição, desse borramento, desse modo como as formas deixam de se afirmar para passar a ressoar.

Belíssimo disco, como de costume.

Clique aqui para ouvir o disco.

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