O filme Pânico VI (Scream VI), lançado em 2023, dá continuidade direta aos eventos do longa de 2022 e constitui o sexto capítulo de uma das franquias mais icônicas do terror contemporâneo. Desta vez, a narrativa abandona a cidade fictícia de Woodsboro e desloca seu rastro de violência para a escala impessoal e vertiginosa de Nova York.
Não me alongarei na sinopse, pois, a esta altura, qualquer tentativa de detalhá-la redundaria em repetição. A estrutura narrativa e os temas permanecem essencialmente os mesmos dos capítulos anteriores, com variações pontuais que pouco alteram o conjunto. Mais uma vez, acompanhamos sobreviventes confrontados por um novo assassino sob a máscara de Ghostface, cujas motivações e reviravoltas seguem padrões já estabelecidos. Os comentários metalinguísticos, marca registrada da franquia, também retornam, reiterando uma fórmula que já se tornou reconhecível.
Trata-se de uma franquia que, ao longo do tempo, tornou-se inevitavelmente formuláica, e cujo valor, a cada nova iteração, parece sofrer um desgaste progressivo. Há, nesse sentido, um paradoxo difícil de contornar: ao inovar demais, arrisca-se a perder sua identidade; ao permanecer fiel à fórmula, cai na previsibilidade.
Em geral, sou inclinado a pensar que aquilo que se repete tende a perder força em sua última repetição. Seria, portanto, razoável supor que o sexto capítulo fosse inferior ao anterior. No entanto, não é essa a minha experiência. Ao contrário, Scream VI me agradou mais do que Scream V, e essa preferência exige alguma explicação.
A fórmula da franquia, de fato, já demonstrava sinais de esgotamento desde o terceiro filme. Se o primeiro operava como uma reflexão metalinguística sobre o slasher e o segundo expandia esse gesto ao comentar a lógica das continuações, os capítulos posteriores pouco acrescentaram em termos conceituais. A engrenagem narrativa entrou em modo automático.
Ainda assim, a execução pode fazer diferença. Mesmo quando a estrutura se repete, a intensidade da experiência varia. No meu caso, as repetições já não provocam incômodo significativo. Em determinado ponto, deixei de exigir da franquia aquilo que ela claramente já não pretende oferecer. Gosto da fórmula de Scream, e o que passa a definir minha avaliação são outros elementos.
Não se trata mais de julgar a engenhosidade narrativa, mas de considerar o filme enquanto slasher: a eficácia da tensão, o ritmo das perseguições, a construção da adrenalina e o impacto da violência. Sob esse aspecto, Scream VI se mostra superior ao seu antecessor.
Outro critério relevante é o desenvolvimento dos personagens. É preciso manter certa medida de realismo crítico: não se pode exigir profundidade psicológica de uma franquia desse tipo. No entanto, é legítimo esperar carisma e uma mínima coesão entre os personagens. Nesse ponto, o filme também apresenta um avanço, talvez configurando um dos elencos mais funcionais de toda a série.
Do ponto de vista dramático, Scream VI também se destaca. No capítulo anterior, o momento verdadeiramente memorável era o assassinato brutal do xerife Dewey Riley. Aqui, em contrapartida, há uma energia mais constante, sustentada sobretudo pela dinâmica do chamado “Core Four” (Sam, Tara, Chad e Mindy), cuja interação remete ao espírito coletivo de grupos como o de Dream Warriors, em A Nightmare on Elm Street 3: sobreviventes que não apenas resistem, mas aprendem a agir em conjunto.
Esse elemento contribui decisivamente para tornar o filme mais envolvente. Soma-se a isso a interessante proposta de uma “Final Girl” dupla. A relação entre as irmãs Carpenter, marcada pela instabilidade de Sam e pela resiliência vulnerável de Tara, introduz uma dimensão de trauma compartilhado que, embora não profundamente explorada, acrescenta uma camada dramática relevante.