Scream 5 foi o primeiro momento em que a repetição, antes invisível ou ao menos disfarçada, passou a me incomodar.
Há algo de particularmente cansativo não apenas na reiteração dos elementos formais da franquia, mas na consciência quase ansiosa com que o filme os expõe, como se temesse que o espectador já não fosse capaz de reconhecê-los por si só.
Desde Pânico (1996), a série construiu sua identidade a partir de um jogo metalinguístico que, à época, parecia simultaneamente irreverente e renovador. No entanto, aquilo que um dia operou como ruptura agora se apresenta como protocolo. Em Scream 5, o diálogo com o conceito de “requel” (forma híbrida entre continuação e reinício) surge como uma espécie de obrigação discursiva.
O filme não apenas participa da lógica que comenta, ele a sublinha, a explica, a didatiza.
No entanto, a metalinguagem, outrora diferencial, torna-se previsível. Ela se repete com a mesma regularidade dos sustos e das facadas. E, nesse processo, sofre uma mutação curiosa: deixa de ser ferramenta crítica para se converter em autoindulgência.
Há um momento em que o gesto reflexivo se dobra sobre si mesmo e perde sua potência, como se o roteiro estivesse mais interessado em ser reconhecido como “esperto” do que em, de fato, produzir algum efeito novo.
O problema não está na consciência (afinal, Pânico 2 já flertava com essa autorreferência), mas na forma como essa consciência é instrumentalizada.
Antecipar a crítica não a neutraliza; pelo contrário, pode evidenciá-la. Quando o filme “verbaliza” suas próprias limitações, ele não as resolve, apenas as legitima. O que resta é uma sensação de cinismo: a obra parece “pedir aplauso” não por aquilo que realiza, mas por aquilo que admite não conseguir realizar.
Nesse sentido, Scream 5 encena uma espécie de paradoxo estético. Ele entrega algo deliberadamente medíocre e, ao reconhecer essa mediocridade como parte das “regras do jogo”, espera que o espectador aceite o gesto como virtude. A metalinguagem, então, deixa de ser instrumento de invenção e passa a funcionar como escudo; uma forma de evitar o risco inerente à originalidade.
Ainda assim, achei interessante assistir Pânico 5 justamente porque ele me levou a revisitar minha própria recepção de Pânico 4. POR QUE RAIOS EU GOSTEI TANTO DE PÂNICO 4 E NÃO DESSE? Afinal, muitos dos problemas de originalidade que me incomodam agora já estavam presentes ali, ainda que de forma mais discreta.
Bem, vou tentar organizar minhas próprias ideias.
Em Pânico 4, os sinais de repetição já estavam presentes, mas ainda assim havia ali um frescor que agora parece ausente. Talvez isso se deva, em parte, à assinatura de Wes Craven, cuja direção ainda conseguia extrair tensão genuína de estruturas já conhecidas. Havia, em seu cinema, uma pulsação que sublimava o artifício. Wes Craven trabalha a metalinguagem de forma mais leve, solta e genuinamente divertida. Em Pânico 4, isso fica muito claro na sequência de abertura em que as camadas de filme dentro do filme se acumulam com um humor irreverente, sem a necessidade de se explicar o tempo todo.
Mas há também uma questão de contexto. Em 2011, a sátira à cultura dos remakes ainda carregava certa acidez; não era um comentário esgotado. Já em Scream 5, o foco no fandom e na autorreferência encontra um terreno saturado, previamente explorado por obras como O Segredo da Cabana e até pela própria série televisiva Scream. O que antes soava como diagnóstico passa a ecoar como um comentário redundante.
Há, por fim, uma diferença sensível na materialidade da violência. Pânico 4 tinha uma violência extrema. A cena da Olivia Morris sendo estripada ficou gravada na minha memória como um dos momentos mais viscerais (no sentido mais literal possível) de toda a franquia. Em contraste, Scream 5 parece adotar uma violência mais protocolar, ainda que brutal. As facadas são pesadas, os golpes buscam realismo, mas falta-lhes a dimensão da brutalidade.
No fim, o que se revela não é apenas o esgotamento de uma fórmula, mas o esgotamento de uma estratégia de comentário sobre a própria fórmula. Scream 5 não fracassa por repetir; fracassa por acreditar que reconhecer a repetição ainda seja, por si só, um gesto suficiente.
