Existe algo particularmente perverso na maneira como uma sociedade em crise escolhe seus inimigos. Em vez de reconhecer as contradições que a corroem por dentro, ela procura uma figura externa à qual possa atribuir toda a responsabilidade por seus problemas. O estrangeiro, o desconhecido, aquele que não compartilha os mesmos códigos e costumes, torna-se um alvo conveniente para os ressentimentos de uma comunidade incapaz de compreender a própria decadência.
Mas essa relação é também mais contraditória e complexa do que parece. Enquanto uma parte da sociedade enxerga o estrangeiro como uma ameaça, outra pode encontrar em sua vulnerabilidade uma oportunidade.
Sob um discurso de empatia e solidariedade, sua presença pode ser convertida em vantagem material, sobretudo quando ele passa a integrar uma reserva de mão de obra barata, disposta a aceitar condições desfavoráveis por falta de alternativas. Em outros casos, sua figura serve apenas como matéria-prima para a produção de dividendos políticos.
O mesmo indivíduo que não é considerado digno de pertencer plenamente à sociedade pode ser perfeitamente útil para aqueles que desejam explorá-lo.
É desse universo de contradições que parte Fantasia, quarto álbum de estúdio do SLIFT, trio francês de rock psicodélico, lançado pela Sub Pop Records em 5 de junho de 2026.
Inspirado pelo realismo fantástico de Jorge Luis Borges, o disco constrói uma narrativa sobre xenofobia, autoritarismo e manipulação social, utilizando uma realidade imaginária para abordar problemas bastante concretos.
Como explicou o guitarrista e vocalista Jean Fossat, a intenção era explorar questões contemporâneas por meio de um mundo alternativo, no qual elementos fantásticos fazem parte da vida cotidiana.
A história do disco acompanha um andarilho estrangeiro que chega à cidade fictícia de Fantasia em busca de abrigo. Governada por tiranos e corroída por conflitos internos, a cidade transforma sua presença em justificativa para uma crise que já existia muito antes de sua chegada. O protagonista torna-se um bode expiatório, mas o problema não se resume à intolerância dos habitantes. A própria estrutura social parece depender da fabricação de inimigos e da manutenção de uma ordem que beneficia aqueles que a controlam.
A inspiração em Borges ajuda a compreender essa construção. Em suas narrativas, o fantástico frequentemente serve para desestabilizar aquilo que julgamos conhecer.
Há uma ironia evidente no próprio nome da cidade. Fantasia evoca imaginação, liberdade e mundos impossíveis, mas o universo construído pelo álbum é brutalmente concreto. A extraordinária arte da capa reforça esse paradoxo ao apresentar uma criatura de aparência alienígena que remete a formas de vida existentes na Terra. O estranho não precisa vir de outro planeta. Às vezes, já está diante de nós, oculto sob a aparência do cotidiano.
Musicalmente, o trio combina um stoner rock cru, pesado, árido e sufocante com um blues rock abrasivo, incorporando elementos de space rock, rock progressivo e psicodelia. O resultado é uma música que parece estar permanentemente à beira de alguma ruptura. Uma sensação de desgaste e instabilidade atravessa as composições, como se cada riff contribuísse para a construção de um ambiente que se fecha progressivamente ao redor do ouvinte.
Jean Fossat canta com uma fúria desesperada, enquanto suas guitarras carregadas de fuzz parecem rasgar o espaço ao redor. O baixo de Rémi Fossat e a bateria de Canek Flores sustentam uma massa sonora densa, mas nunca estática. Os ritmos possuem uma força física considerável, alternando entre grooves insistentes e passagens explosivas, enquanto os teclados introduzem uma dimensão atmosférica que torna a experiência simultaneamente etérea e claustrofóbica.
O aspecto mais interessante dessa combinação é que a psicodelia não funciona apenas como um recurso para tornar a música mais expansiva ou alucinógena. Ela também contribui para a sensação de paranoia. As repetições parecem aprisionar as composições em movimentos circulares, enquanto as camadas instrumentais criam a impressão de que alguma coisa está prestes a escapar do controle. O peso não está apenas nos riffs, mas também na tensão que a banda consegue construir ao redor deles.
Essa abordagem representa uma mudança importante em relação a Ilion, álbum anterior do grupo, lançado em 2024. Naquele trabalho, o SLIFT explorava longas composições que frequentemente ultrapassavam os dez minutos, desenvolvendo extensas viagens instrumentais entre o stoner metal, o doom e o space rock. Em Fantasia, a banda adota estruturas mais concisas, concentrando sua energia em oito faixas que, juntas, duram menos de cinquenta minutos.
A mudança não significa um abandono da complexidade. Pelo contrário, a impressão é de que o trio aprendeu a concentrar em cada composição aquilo que antes desenvolvia por meio de longas digressões. Os arranjos continuam dinâmicos, as mudanças de direção permanecem imprevisíveis e a psicodelia ainda desempenha um papel central, mas existe uma preocupação maior com a economia dos elementos. A banda parece interessada em descobrir até onde pode levar suas ideias sem diluí-las em extensões desnecessárias.
O próprio processo de gravação ajuda a entender essa sonoridade. Os músicos gravaram juntos em uma ampla sala de captação, preservando a interação entre os instrumentos e registrando muitas das performances em tomadas únicas. O resultado é uma produção que privilegia a força das interpretações, sem esconder a aspereza dos timbres sob camadas excessivas de processamento.
Essa crueza é fundamental para o disco. A guitarra de Jean Fossat pode assumir proporções gigantescas, mas continua integrada ao movimento do baixo e da bateria. Em vez de transformar cada instrumento em uma camada isolada, a produção ressalta a sensação de três músicos construindo algo em conjunto, reagindo uns aos outros em tempo real. Existe uma fisicalidade nessa abordagem que faz com que o álbum pareça respirar, mesmo nos momentos de maior densidade.
É interessante perceber como a música parece antecipar aquilo que a narrativa verbaliza. Antes mesmo de compreendermos os acontecimentos descritos pelas letras, os riffs ásperos, as repetições obsessivas e as explosões instrumentais já comunicam uma sensação de desgaste e paranoia. O conceito não está restrito à história do estrangeiro ou às referências literárias. Ele se manifesta na própria experiência de ouvir o disco.
No fim, Fantasia me parece um álbum particularmente bem-sucedido porque consegue conciliar a força física do rock pesado com a elaboração de uma obra conceitual. A influência de Borges oferece ao SLIFT uma maneira de questionar a realidade, enquanto a crueza da produção, a densidade dos arranjos e a inquietação psicodélica transformam essa reflexão em algo visceral.
A cidade imaginária do disco procura um culpado para seus problemas, enquanto aqueles que controlam a ordem estabelecida encontram maneiras de preservar seus privilégios. O estrangeiro pode ser tratado como uma ameaça ou convertido em instrumento de exploração, dependendo dos interesses em jogo. Essa contradição ajuda a compreender o mundo de Fantasia, mas também ultrapassa os limites de sua narrativa.