É próprio das grandes obras de arte não se ajustarem perfeitamente a rótulos.

Coração Selvagem (Wild at Heart), de David Lynch, é um desses filmes que desafiam classificações. Ele transita pelo road movie onírico, pelo drama romântico de viés neo-noir, pelo thriller de humor negro e pelo horror absurdista.

Talvez nenhuma dessas categorias dê conta do que o filme realmente é. Talvez fosse preciso inventar um gênero novo ou fundir vários até encontrar um que capture sua essência.

A narrativa acompanha a relação intensa e turbulenta de Sailor Ripley (Nicolas Cage), jovem fascinado por Elvis Presley, e Lula Pace Fortune (Laura Dern), marcada por sua devoção a O Mágico de Oz.

Após Sailor cumprir pena por matar um homem em legítima defesa, o casal foge da perseguição da mãe controladora de Lula, Marietta Fortune (Diane Ladd, mãe de Laura Dern na vida real), que contrata criminosos e um detetive particular para assassiná-lo.

Marietta incorpora a figura da mãe devoradora, símbolo arquetípico da possessividade e do controle. Sua tentativa de destruir o casal é o reflexo distorcido de um amor materno que se converte em vontade pervertida de domínio e desejo de castração.

A estrada por onde Sailor e Lula viajam é um símbolo espiritual clássico do cinema americano. A autoestrada torna-se o arquétipo da liberdade e da descoberta individual, ao transformar o deslocamento físico e a não permanência em metáforas para a jornada interior dos personagens. É um não lugar da mitologia americana, onde o sujeito rompe com sua família e com sua origem para reencontrar a si mesmo, enquanto o mundo se abre como território privado. Para Sailor e Lula, é fuga e, simultaneamente, descida ao inconsciente.

Lynch trabalha o imaginário americano manipulando delírio, sonho e totens da cultura pop. Elvis Presley e O Mágico de Oz surgem como ícones que estruturam o inconsciente de cada personagem. Sailor, com sua jaqueta de couro de cobra, encarna a fantasia do macho rebelde e protetor. Lula, com seus sapatos vermelhos, é uma Dorothy perdida num mundo em que o caminho de tijolos amarelos aponta para um lar indefinível.

É notável como Lynch não hesita em incorporar elementos de fábula ao seu cinema. A aparição da “Bruxa Boa” no final (opa, spoiler) não é mero artifício narrativo, mas epifania simbólica: manifestação do princípio da esperança, da força sobrenatural que tenta restaurar o equilíbrio interior. É o inconsciente, ou talvez Deus, oferecendo uma via de reconciliação ao herói que quase sucumbe.

A estética lynchiana domina cada quadro: iluminação hiperestilizada, cores vibrantes, cortes bruscos e um imaginário saturado de ícones. O real e o surreal se misturam até se tornarem indissociáveis.

Há uma violência quase espetaculosa, uma narrativa fragmentada, subtramas que parecem aleatórias (ou se fingem de aleatórias), certa suposta falta de coesão emocional e um centro narrativo aparentemente instável.

Esses elementos, que sob outro diretor poderiam soar como erros, em Lynch se tornam marca registrada. Seu cinema opera na lógica do sonho e do subconsciente, não na racionalidade desperta.

O simbolismo é permanente. O Mágico de Oz permeia toda a trama como metáfora de fuga e desejo. O casal quer escapar do pesadelo familiar rumo a uma espécie de país das maravilhas repleto de perigos e figuras grotescas, como Bobby Peru (Willem Dafoe), com seu sorriso de dentes podres, e a própria Marietta com seu histrionismo delirante.

As atuações são intensas e desmedidas. Nicolas Cage e Laura Dern encarnam o amor selvagem e inocente com entrega absoluta.

A trilha sonora merece um comentário à parte. Ela expressa o mesmo ecletismo do filme, misturando rockabilly, pop, heavy metal, música orquestral e composições originais de Angelo Badalamenti. O resultado é uma paisagem sonora tão fragmentada e imprevisível quanto a própria narrativa.

Como Sailor é devoto de Elvis Presley, o filme inclui diversas referências ao Rei do Rock. Nicolas Cage canta “Love Me” e “Love Me Tender”, que funcionam como declarações de amor a Lula e como ecos de um romantismo ingênuo em meio à brutalidade do enredo. A trilha também traz clássicos dos anos 1950 e 1960, como “Be-Bop-A-Lula”, de Gene Vincent, e “Baby Please Don’t Go”, do Them, além de trechos de música erudita, como o excerto de “Im Abendrot”, de Richard Strauss. Há ainda passagens de heavy metal, como “Slaughterhouse”, da banda Powermad, que surgem em momentos de violência e criam contrastes radicais com as melodias suaves de outras cenas.

No fim, Coração Selvagem é uma orquestra caótica regida por Lynch. Suas rupturas, dissonâncias e súbitas explosões emocionais não são excentricidades, mas reflexos da própria vida. A existência também é um mosaico de gêneros: um pouco de terror, um pouco de romance, um pouco de comédia, um pouco de delírio e, inevitavelmente, uma dose de fantasia e milagre.

Talvez o filme seja a maneira de Lynch afirmar que a vida é tão cafona, extravagante e sexy quanto uma jaqueta de couro de cobra. DRIP.

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