Born Again é um dos discos que eu mais gosto do Black Sabbath. Lançado em 1983, ele se destaca em um ano excepcional para o heavy metal, que também trouxe álbuns como Piece of Mind (Iron Maiden), Holy Diver (Dio), Kill ’Em All (Metallica), Melissa (Mercyful Fate) e Bark at the Moon (Ozzy Osbourne).
Gosto de absolutamente tudo nesse disco: do clima sombrio, típico do Sabbath, à energia intensa trazida pela presença de Ian Gillan, até mesmo da capa bizarra e da mixagem confusa, justamente os pontos mais criticados pelos fãs e pelos próprios membros da banda. Recentemente escrevi um texto defendendo que nem a capa nem a mixagem precisam ser corrigidas:
Born Again e o fascínio da falha: por que a mixagem e a capa não precisam ser corrigidas
Para mim, Born Again é o melhor álbum do Sabbath desde Sabotage. Não saberia colocá-lo em um ranking. É um disco que existe à parte, como um experimento estranho e fascinante.
A abertura com Trashed é explosiva. Considero uma das faixas mais emblemáticas do disco. A letra, escrita por Ian Gillan, é autobiográfica e narra um acidente real, quando ele bateu um carro em uma pista de corrida após beber uma garrafa de tequila. O termo trashed pode ser traduzido como “detonado” ou “destruído”.
Conceitualmente, a música parece uma continuação de Highway Star (Deep Purple), transformando a obsessão pela velocidade em colisão, ferro retorcido e caos. Musicalmente, transmite exatamente essa imagem de descontrole e tragédia.
Em seguida vem Stonehenge, uma curta faixa instrumental atmosférica que serve como introdução sombria para Disturbing the Priest.
Essa é uma das melhores músicas do álbum, intensa, pesada e teatral. Ela nasceu de um episódio real durante as gravações no The Manor Studio, em Oxfordshire, quando o som altíssimo da banda incomodava um padre da igreja próxima. Gillan transformou a situação em letras sobre o conflito entre o sagrado e o profano.
A performance vocal de Gillan é impressionante. Ele alterna entre gritos agudos, uivos e risadas insanas, criando um clima de terror e loucura que combina perfeitamente com a sonoridade do disco. A bateria de Bill Ward é visceral e, paradoxalmente, ganha ainda mais força justamente por causa da mixagem “defeituosa”.
Depois vem The Dark, um interlúdio instrumental que prepara o terreno para uma das grandes faixas do álbum: Zero the Hero.
Zero the Hero, que fecha o lado A, é uma das composições mais poderosas do Sabbath. Ela mistura elementos do heavy metal tradicional com nuances de doom metal e apresenta uma crítica à apatia e ao conformismo da sociedade moderna. A figura do “herói zero” simboliza o indivíduo medíocre, controlado pela mídia e preso à rotina.
A letra é incisiva. “You’re really nothing, you’re so pathetic, you’re a zero, hero.” A música é quase hipnótica, com um riff circular que reforça a ideia de aprisionamento e repetição.
O lado B começa com Digital Bitch, uma faixa rápida, enérgica e sarcástica. A letra retrata uma mulher rica e superficial, provavelmente inspirada em uma figura real ligada à banda, possivelmente Sharon Arden, mais tarde Sharon Osbourne.
Em seguida vem a faixa-título, Born Again, uma das mais atmosféricas e emocionais do disco. Em contraste com a agressividade de Trashed ou Digital Bitch, ela adota um ritmo lento e denso, próximo ao hard rock melancólico.
A produção abafada, tão criticada, realça o clima de introspecção e peso emocional. A letra fala de decadência e renascimento: “As you look through my window deep into my room / The tapestries all faded, their vague and distant glories concealed in the gloom.” O refrão, ao evocar o renascimento, introduz uma nota de esperança em meio à escuridão.
A voz de Gillan aqui é mais contida, quase trágica. Já a guitarra de Tony Iommi constrói uma atmosfera de fatalidade, o tipo de sentimento que sempre definiu o melhor do Sabbath.
Hot Line vem na sequência, retomando o ritmo acelerado e se aproximando da sonoridade da New Wave of British Heavy Metal. A letra fala sobre um apelo de ajuda, talvez espiritual, com a “linha direta” simbolizando uma conexão de emergência ou salvação.
Por fim, Keep It Warm encerra o disco de forma surpreendente. É uma power ballad, algo raro na discografia do Sabbath, e traz uma sonoridade mais leve, próxima ao Deep Purple. A canção fala sobre manter viva a chama do amor e da paixão: “Keep it warm, keep it strong, keep it burning on and on.”
Vale mencionar também The Fallen, faixa que não entrou na edição original, mas foi incluída na versão deluxe de 2011. Ela mantém a energia de Trashed e Digital Bitch e reforça o caráter coeso do álbum. Essa edição estendida ainda traz uma versão longa de Stonehenge e gravações ao vivo de Hot Line, Zero the Hero e clássicos como War Pigs, Paranoid e Smoke on the Water.
Em suma, Born Again é um disco único, imperfeito, exagerado e enigmático, mas dotado de uma força rara. Sua falha é parte essencial de seu encanto. Em vez de suavizar seus excessos, o álbum os transforma em linguagem e estilo.

