The Witches’ Cradle é um curta-metragem experimental, mudo e inacabado, escrito e dirigido pela cineasta vanguardista Maya Deren em colaboração com ninguém menos que Marcel Duchamp.
O filme foi inteiramente rodado na famosa galeria Art of This Century, em Nova York, fundada por Peggy Guggenheim, uma das mais importantes colecionadoras, galeristas e mecenas de arte do século XX.
As filmagens utilizaram especificamente o espaço e a cenografia concebidos por Duchamp para a seção surrealista da galeria.
Infelizmente o projeto acabou sendo abandonado. Após cerca de um mês de filmagens, Maya Deren interrompeu a produção por motivos que nunca foram totalmente esclarecidos.
Décadas depois da morte da cineasta, o Anthology Film Archives, instituição dedicada à preservação, ao estudo e à exibição de filmes experimentais e independentes, resgatou e montou o material que havia sido deixado de lado.
A versão restaurada tem aproximadamente 12 minutos e costuma ser exibida em mostras e programações dedicadas ao cinema experimental.
Não há uma sinopse propriamente dita, nem uma narrativa que possamos acompanhar de maneira convencional. O que temos é uma experimentação audiovisual construída a partir de imagens caóticas, gestos enigmáticos e uma atmosfera de mistério.
O principal elemento visual do filme é um barbante branco que se entrelaça de maneira aparentemente bizarra pelas mãos dos personagens e pelas obras de arte da galeria, formando algo semelhante a uma teia de aranha. Esse fio estabelece conexões entre os corpos e os objetos, como se todos estivessem presos a uma mesma estrutura invisível.
No elenco, temos o próprio Marcel Duchamp, que interpreta um senhor idoso, e Pajorita Matta, que interpreta uma jovem.
Na minha interpretação, o filme sugere uma reflexão sobre a arte como algo capaz de aprisionar o artista em suas próprias concepções. Os personagens parecem estar vinculados, quase literalmente amarrados, aos objetos artísticos e ao espaço em que se encontram. O barbante pode representar justamente essa relação de dependência, como se o artista não conseguisse se desvincular daquilo que cria ou das ideias que orientam sua produção.
Essa leitura me parece especialmente pertinente quando pensamos na obra de Duchamp. Sua produção envolve uma reflexão constante sobre a própria arte, sobre o que faz de um objeto uma obra artística e sobre as convenções que determinam seu reconhecimento.
E, antes que alguém diga qualquer coisa, sim, acho o mictório de Duchamp uma obra genial.
Naturalmente, não dá para afirmar com absoluta certeza que essa era a intenção do filme. Como se trata de uma obra inacabada e sem uma narrativa explícita, qualquer interpretação precisa levar em conta essa margem de incerteza.
A leitura também ganha outra dimensão quando consideramos as sugestões místicas presentes no próprio título, The Witches’ Cradle, ou O Berço das Bruxas. Talvez a galeria funcione como esse berço: um espaço que envolve, condiciona e aprisiona o artista, mantendo-o preso às estruturas de sua própria criação – como se fosse um lugar amaldiçoado.
Em determinado momento, aparece a imagem de uma mulher com um pentagrama na testa. Ao redor do símbolo, lemos a frase the end is the beginning is the end, algo como “o fim é o começo, é o fim”.
A composição reforça a ideia de um movimento circular, no qual o princípio e o fim se confundem.
O pentagrama evoca a bruxaria e a prática de rituais mágicos, enquanto o círculo formado pela frase sugere um aprisionamento cíclico, um loop infinito do qual não há saída. Podemos relacionar essa imagem à concepção pagã do tempo circular, em que os acontecimentos cósmicos não seguem necessariamente uma progressão linear (de começo, meio e fim, como é na ideia judaico-cristã), mas retornam continuamente ao ponto de partida.
O símbolo na testa pode, também, remeter à ideia ocultista do terceiro olho, associado à abertura de uma percepção mística da realidade. Nessa leitura, a figura da mulher representaria alguém que ultrapassa a percepção ordinária do mundo, talvez estabelecendo uma correspondência entre o artista e uma espécie de sacerdote, alguém capaz de acessar dimensões da realidade que escapam às formas convencionais de compreensão.
Essa hipótese ganha força quando lembramos que Maya Deren tinha um certo interesse pelo ocultismo e pelas práticas ritualísticas. Ela trabalhou como assistente do escritor William Seabrook, conhecido por seus estudos sobre práticas de feitiçaria, e posteriormente se dedicou ao estudo do vodu haitiano (foi ele quem trouxe o conceito de zumbi para a cultura pop). O interesse de Deren por essas tradições também aparece em outros momentos de sua trajetória artística, tornando pertinente considerar essa dimensão na leitura de The Witches’ Cradle.
Voltando à imagem do pentagrama, gosto de pensar nela como uma espécie de carimbo que simboliza o confinamento criativo. O pensamento do artista, ou mesmo do indivíduo, passaria a operar dentro de um ciclo do qual não consegue escapar, tornando-se refém da própria estrutura mental. Aquilo que deveria funcionar como instrumento de criação se transforma em uma prisão.
Se essa interpretação estiver certa, o filme pode adquirir até mesmo um caráter de pedido de socorro. O artista estaria tentando escapar de um sistema de ideias que ele próprio ajudou a construir, mas do qual já não consegue se libertar. A criação, nesse caso, deixa de ser apenas uma forma de expressão e passa a representar também uma condição de aprisionamento.
Para assistir ao filme, recomendo o link abaixo:
Gostei bastante de como a música de Enric Chalaux, que não faz parte da composição original do filme, já que a obra é muda, enfatiza essa sensação de transe hipnótico. Chalaux utiliza texturas sonoras e elementos do ambient experimental que se encaixam perfeitamente na atmosfera ominosa, onírica e ritualística sugerida pelas imagens. A música não apenas acompanha o filme, mas também intensifica a sensação de que estamos diante de um ritual cujo significado permanece inacessível.
É uma combinação que funciona muito bem, especialmente porque a trilha não procura explicar as imagens ou impor uma narrativa definida. Em vez disso, ela prolonga o estado de inquietação provocado pelo filme e reforça a impressão de estarmos presos a um universo simbólico do qual não conhecemos as regras.
