Recentemente, fui convencido da inutilidade de se separar, na obra de Machado de Assis, um “período romântico” e um “período realista”. Na verdade, essas categorizações são, em geral, bastante imprecisas quando se trata de grandes escritores. Machado é um autor de projeção na alta cultura; apesar de ser brasileiro e viver em uma época específica — o que o torna um observador agudo das questões sociais, cotidianas e morais do Brasil do Segundo Reinado —, está longe de ser meramente local ou datado. Se já é discutível um vínculo determinante entre a pessoa e sua época, mais ainda o seria entre essa mesma pessoa e as modas artísticas, intelectuais e literárias.

Ainda assim, para fins de localização histórica, talvez possamos abrir uma exceção e situar suas obras como pertencentes, em maior ou menor grau, a determinados movimentos ou períodos literários.

Helena, publicado pela primeira vez em 1876, é um dos livros tradicionalmente associados ao chamado “período romântico” do autor.

É um dos romances mais longos e emocionalmente intensos de Machado. A história segue, em parte, a clássica fórmula do “amor impossível”, combinando elementos de mistério e tensões familiares com tons quase shakespearianos, nos quais relações parentais e românticas se confundem à beira de um escândalo.

O foco do romance é Helena, uma jovem pobre e filha ilegítima, que é inserida em uma família abastada por força de um testamento. Ao se mudar para a nova casa, ela é acolhida pela família e acaba se apaixonando por seu meio-irmão, Estácio.

O enredo apresenta elementos típicos do romantismo, como a paixão fulminante entre dois protagonistas (Helena e Estácio), separados por fatalidades e convenções sociais. A trama se desenvolve por meio de intrigas, segredos e chantagens, culminando em uma revelação final que subverte tudo o que foi construído até então.

Os personagens femininos em Machado de Assis são sempre emblemáticos — e aqui não é diferente. É notável como o autor reforça os traços de uma personagem ao colocá-la em contraste com outras dentro da mesma narrativa.

Em Helena, há um contraponto interessante entre duas figuras femininas: Helena e Eugênia. Sem entrar em detalhes narrativos, podemos resumi-las como expressões de diferentes intenções autorais.

Eugênia é retratada como uma jovem bela e graciosa, porém frívola e imatura. Ela representa, de certo modo, uma aristocracia decadente, inclinada à ociosidade e ao culto do adorno.

Helena, em contraste, é deliberadamente construída para ser admirável. Machado valoriza nela as virtudes pessoais e as habilidades práticas. É uma mulher industriosa, leitora ávida, amante da música, exímia cavaleira e com refinado trato social. Ela é apresentada como uma “aristocrata real”, não por convenções externas, mas por mérito e conduta. Em sua composição, há um espírito viril, lusitano e benevolente, sem que isso comprometa sua feminilidade.

O drama de Helena se aproxima de uma fatalidade grega: um destino trágico, inescapável, sem resolução plena. Sua identidade é uma síntese indissolúvel entre herdeira legítima, mulher apaixonada e filha bastarda de um amor extraconjugal — um conflito entre os papéis de filha, irmã e mulher coexistindo numa só personagem.

Em suma, Helena é uma fusão de tragédia grega e drama shakespeariano, com contornos emocionais típicos da sensibilidade latina — intensa, melodramática e barrocamente humana.

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