Enquanto o primeiro romance de Machado de Assis, Ressurreição, é uma descrição mordaz da deterioração do amor pelo ciúme, A Mão e a Luva segue um modelo de história de amor muito mais leve e agradável — daquelas com um clássico final feliz, em que o enredo explora um (igualmente clássico) território de disputa pelo coração de uma dama (Guiomar), cortejada por três pretendentes: Luiz Alves, Jorge e Estevão.
Ressurreição me parece um romance muito superior, tanto pela sua causticidade quanto pelo estilo machadiano de inserir reflexões filosóficas pessoais. A Mão e a Luva soa, para mim, mais distante desse estilo — talvez mais comercial.
Eu poderia dizer que é um romance comum (nem bom, nem ruim), se não gostasse tanto do penúltimo capítulo do livro, que descreve o momento em que Guiomar deve escolher seu pretendente na presença de sua madrinha. É uma cena em que se destaca a habilidade do autor em retratar uma personagem dividida entre sua própria vontade, os desejos da família e os contratempos — naturais e artificiais — surgidos ao longo da trama.
Ao ler as últimas palavras do livro — que, aliás, dão nome ao romance (e cuja origem era uma dúvida que me acompanhou desde o início da leitura) —, a única coisa que consegui pensar foi: “Ok, Machado de Assis escreve bem e sabe organizar sua história.”
Embora não seja um romance de que eu particularmente goste, a leitura apenas aumentou minha admiração pelo escritor. Não apenas pela qualidade da escrita, mas pela organização metódica invejável do enredo.
Machado sabe apresentar personagens e situações, e aproveitá-los todos em igual medida. Sabe introduzir elementos narrativos de maneira sutil e retomá-los depois, com maestria. É coeso na articulação dos dados narrativos, estimula a imaginação do leitor e manipula, com habilidade maliciosa, seus gatilhos de ansiedade e antecipação — especialmente entre o fim de um capítulo e o início do próximo.
Obviamente, eu — como tantos — conheci primeiro o Machado de Assis realista, de estilo mais livre. E, embora essa tenha sido sua melhor fase, é importante reconhecer que, para chegar a ela, Machado precisou desconstruir um estilo anterior. Ele desconstruiu um estilo que dominava plenamente. Sem essa referência, aqueles que tomam apenas a fase madura de Machado como modelo e tentam seguir seus passos correm o risco de se tornarem meros imitadores.
Não falo de ninguém em especial. Estou tentando escrever um livro (na verdade, dois) e talvez eu mesmo seja um desses imitadores vulgares.