O filme “Siu Ngo Gong”, lançado em 1990, é uma adaptação cinematográfica dirigida por King Hu do romance wuxia “The Smiling, Proud Wanderer”, escrito por Louis Cha (Jin Yong).

A história ocorre em meio às intrigas da China da dinastia Ming e envolve o roubo de um pergaminho secreto chamado “Manual da Flor do Girassol”, que concede habilidades incríveis a quem o dominar.

Ou seja, temos aqui uma típica história de wuxia. Se você viu uma, viu todas — e juro que não falo isso com desprezo.

Os atrativos do wuxia estão muito mais na forma do que no conteúdo, e eles são, certamente, mais sofisticados do que aparentam.

Ele é exagerado, acrobático e visivelmente mais circense do que marcial. Suas lutas são tão excessivamente coreografadas que se assemelham mais a um balé do que a um combate.

Pode-se dizer que o wuxia tem mais proximidade com a ópera do que com o cinema. Nas óperas, os exageros — tanto dramáticos quanto cômicos — são elementos distintivos, e o gênero abraça essa herança sem hesitação.

Uma coisa importante a se considerar: o humor autorreferente no wuxia é evidente. Trata-se de uma característica intrínseca do gênero que se repete com notável consistência; em todos, absolutamente TODOS os wuxias que vi, isso está presente. O que torna patéticas as tentativas ocidentais de parodiá-lo: como zombar de algo que já ri de si mesmo? Os próprios heróis frequentemente servem como alívio cômico, equilibrando épico e ridículo com naturalidade (e, neste filme, não é diferente). Basta observar Dragon Ball, cuja influência chinesa é inegável, para entender a inutilidade de tentar “fazer graça” com uma obra autoconsciente de sua comicidade.

As lutas, todas maravilhosamente inverossímeis (e engraçadas), não apenas possuem a plasticidade de uma dança, mas também refletem uma cosmovisão espiritual tipicamente chinesa — aquela mesma que comentei aqui há pouco tempo.

Os lutadores não apenas demonstram precisão matemática em cada movimento, como também controlam os ventos, saltam sobre castelos e explodem montanhas com um soco. Eles também manipulam a natureza com música e destroem objetos à distância com o mais imperceptível dos gestos. E, acreditem, nada disso está ligado a “poderes sobrenaturais”.

No segundo volume de A História das Crenças e das Ideias ReligiosasMircea Eliade descreve como a religião chinesa foi, aos poucos, naturalizando o sobrenatural — a ponto de se tornar, curiosamente, uma expressão de um transcendentalismo imanente.

O que permite a esses guerreiros realizar tais feitos é sempre alguma “técnica ancestral”, um conhecimento secreto guardado nas bibliotecas de cidades sagradas. Não à toa, histórias “prometeicas” sobre pergaminhos roubados são comuns no gênero. Já perdi as contas de quantos wuxias seguiram esse mesmo roteiro.

“Siu Ngo Gong” não foge à fórmula clássica do wuxia, mas destaca-se pela inventividade de suas cenas e pela extravagância de suas ideias — e, nesses quesitos, é um filme bastante satisfatório. Aqui, você será presenteado com lutadores explodindo coisas com a mão, flautas que comandam enxames de abelhas e até um cabo de guerra com uma serpente que infla até estourar (sim, é tão absurdo quanto parece). Se um filme consegue reunir cenas assim, então ele merece ser assistido. ABSOLUTE WUXIA.

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