Em Pernambuco, até 1869, havia uma procissão em homenagem ao deus Baco.
Isso mesmo. Você não leu errado.
Augusto Pereira da Costa descreve que, depois da festividade de Nossa Senhora dos Prazeres, celebrada na Dominga de Pascoela, na linda igreja dos montes Guararapes, seguia-se uma série de festas que se estendia até o domingo seguinte, quando acontecia a festa do deus Baco.
Não se sabe ao certo como essa tradição começou. A hipótese é que tenha vindo de Portugal, onde estaria relacionada à vindima, isto é, à colheita das uvas.
Baco ainda era cultuado no folclore camponês português, mesmo depois da cristianização. A Igreja, naturalmente, não via isso com bons olhos e tentou substituir a figura do deus pela de São Martinho. Evidentemente, esse processo não aconteceu da noite para o dia.
O tempo passa, as tradições mudam e, às vezes, acabam encontrando um novo lugar para sobreviver.
O Brasil era uma terra nova, e os portugueses que vieram para cá ainda traziam na bagagem cultural a memória desses festejos. Por aqui, a tradição encontrou espaço para florescer novamente. Uma espécie de revival de costumes dos avós, bisavós e trisavós.
O que acho interessante nessa história é que não estamos falando simplesmente de uma pilhéria carnavalesca ou de uma brincadeira popular qualquer. Tratava-se de uma procissão em homenagem a Baco, com toda a pompa e circunstância de um culto religioso. Uma manifestação que, em muitos aspectos, lembrava aquelas que se faziam no mundo antigo.
Toda a gente se dispunha em ordem de marcha, formando pelotões, e cada indivíduo conduzia um galho de árvore.
Baco, às vezes representado sobre um tonel, trazia uma coroa de folhas na cabeça e vinha montado sobre uma pipa disposta em forma de charola, carregada aos ombros pelos participantes, que se revezavam na tarefa.
Na mão direita, uma garrafa de vinho. Na esquerda, uma taça, da qual fazia libações enquanto entoava cânticos.
O cortejo circundava as igrejas e chegava até mesmo a entrar em algumas delas. Imaginem o desconforto das autoridades eclesiásticas diante de uma procissão dedicada a um deus pagão que não apenas percorria as ruas, mas também invadia os espaços sagrados do catolicismo.
Segundo Luís da Câmara Cascudo, foram inúmeras as tentativas de pacificação.
A Igreja tentou assumir o controle da manifestação, cristianizando-a, moralizando-a e impondo regras. Talvez a ideia fosse substituir Baco por algum santo e transformar aquele paganismo em uma espécie de catolicismo popular. Uma solução bastante conveniente, considerando que a cristianização de antigas tradições pagãs foi um recurso recorrente na história do cristianismo.
Também houve tentativas de proibir os fiéis de assistir às procissões, na esperança de esvaziá-las, além de negociações para impedir que os participantes entrassem nas igrejas.
Nada disso parece ter resolvido o problema. Por fim, a cavalaria do governo teve de intervir, colocando-se no caminho do cortejo para constranger seus participantes.
Não houve massacre nem decreto. O culto a Baco simplesmente desapareceu da vida pública.
Talvez porque os excessos, a embriaguez e a violência associados à festa tenham contribuído para seu declínio. O fato é que essas manifestações foram perdendo espaço, enquanto seus vestígios sobreviveram em outros lugares e sob outras formas.
Os versos das procissões, por exemplo, chegaram até nós por meio da tradição popular, no interior do Nordeste, nas cidades litorâneas e nos brindes cantados.
E pensar que, em pleno século XIX, em Pernambuco, ainda havia gente saindo às ruas para celebrar Baco.
Às vezes, o passado sobrevive em lugares e costumes nos quais ninguém imaginaria encontrá-lo.
