Memória, Esquecimento, Poesia e Religião

Atena entre as Musas e Mnemósine

Dīgha Nikāya (ou “Coleção dos Longos Discursos”), uma das escrituras fundamentais do budismo Theravada, descreve um fenômeno bastante peculiar: os deuses, ou devas, podem cair dos céus quando “lhes falha a memória e sua memória se confunde”.

A passagem aparece logo no início da obra, no famoso Brahmajāla Sutta (DN 1), ao descrever os seres chamados Khiddapadosika (“corrompidos pelo prazer”) e Manopadosika (“corrompidos pela mente”). Segundo o texto, esses seres habitam reinos celestiais, mas, ao se perderem em prazeres excessivos, sua memória e sua atenção plena (sati) se enfraquecem e se confundem. Quando essa desorientação se completa, eles perdem sua condição divina e renascem como seres mortais.

O esquecimento aparece, portanto, como sono, perda de si, desorientação e cegueira.

Esquecer, nesse sentido, é deixar de reconhecer aquilo que se é.

Essa mesma estrutura simbólica aparece, de maneira surpreendentemente próxima, em uma das narrativas do Chāndogya Upaniṣad, um dos textos mais antigos e importantes da tradição hindu, pertencente ao Sāmaveda.

Ali, conta-se a história de um homem que é capturado por ladrões, levado para um lugar deserto e distante e abandonado. Seus olhos são vendados, e ele é deixado completamente desorientado. Sem saber onde está, começa a andar em círculos e a gritar em todas as direções, dizendo que foi trazido para aquele lugar de olhos vendados e que deseja voltar para casa.

Um viajante compassivo, ao ouvir seus gritos, aproxima-se, retira a venda de seus olhos e aponta-lhe a direção correta. O homem então inicia sua jornada de retorno. Caminha de aldeia em aldeia, pedindo orientações ao longo do caminho, até finalmente conseguir voltar, em segurança, para sua terra natal.

Embora o texto enfatize explicitamente a importância do mestre espiritual e da contínua jornada de retorno, Mircea Eliade, em Mito e Realidade, utiliza essa narrativa para discutir o simbolismo indiano do esquecimento e da rememoração.

O que interessa a Eliade é uma ideia recorrente nas tradições religiosas e filosóficas da Índia: conhecer a verdade é, em certo sentido, recordar-se dela.

O conhecimento espiritual não aparece simplesmente como a aquisição de algo que antes não possuíamos, mas como um retorno a algo que já estava, de alguma maneira, presente em nós.

O homem da narrativa é levado pelos ladrões para longe do Ser, para longe do ātman-Brahman. Os “ladrões” podem ser compreendidos como as ideias de mérito, demérito e outras formas de identificação que obscurecem sua percepção. Eles não lhe roubam simplesmente alguma coisa: roubam-lhe a percepção de quem ele é.

A venda representa a ilusão. Uma vez vendado, o homem passa a identificar-se com aquilo que está ao seu redor: sua mulher, seu filho, seus amigos, seus rebanhos, suas posses e seus desejos.

Esses afetos e posses não precisam ser compreendidos como “pecados”. O problema é outro: trata-se de um erro de perspectiva existencial. O homem passa a definir a si mesmo por suas relações e por aquilo que possui. A ilusão da posse articula-se, assim, com a ilusão da separatividade.

O desejo cria uma densa rede de dependências e, consequentemente, de medos. Essa rede de dependências, desejos e temores constitui precisamente o mecanismo das distrações terrenas, aquilo que a tradição indiana denomina Māyā, a ilusão.

Quanto mais o indivíduo se concentra em proteger, conservar e desfrutar aquilo que considera seu, mais se distancia da percepção daquilo que realmente é. Ele esquece sua “cidade natal”, isto é, o próprio Ser.

Não é por acaso que a narrativa coloca esse homem em um deserto. O deserto pode ser lido como imagem de um mundo marcado pela multiplicidade, pela impermanência e pelo saṃsāra: um lugar em que surgem continuamente miragens, promessas de preenchimento e objetos aos quais nos agarramos na tentativa de encontrar estabilidade.

O deserto é, nesse sentido, a própria condição existencial do homem esquecido.

O homem só consegue lembrar-se de quem realmente é por meio da ascese, da meditação e da disciplina espiritual.

A prática religiosa torna-se, assim, uma espécie de exercício de rememoração.

E é justamente aqui que a ideia começa a adquirir uma dimensão mais ampla.

Na Grécia antiga, encontramos uma distinção fundamental entre mnḗmē e anámnēsis. A mnḗmē corresponde à memória empírica e psicológica: a capacidade de conservar e recuperar dados, impressões, imagens e acontecimentos experimentados ao longo da vida no mundo sensível.

Ela depende do tempo cronológico e das percepções sensoriais. É, por assim dizer, o registro daquilo que aconteceu no plano profano da existência.

anámnēsis, por outro lado, possui uma natureza metafísica. Não se trata simplesmente de lembrar um acontecimento do passado desta vida, mas de despertar para uma verdade eterna que a alma já conhecia antes de sua encarnação, ou em um “passado” que pertence à ordem do illud tempus.

Em Platão, especialmente no Mênon e no Fedro, encontramos essa concepção desenvolvida de maneira particularmente clara. Antes de habitar um corpo físico, a alma teria contemplado o Mundo das Ideias, as Formas perfeitas da Justiça, da Beleza, da Verdade e de todas as demais realidades inteligíveis.

Ao encarnar, porém, ela perde essa visão e mergulha no esquecimento.

anámnēsis ocorre quando o intelecto é despertado, seja pela filosofia, pela dialética ou pela experiência da beleza, e consegue romper parcialmente esse véu. O que acontece não é exatamente a descoberta de uma verdade nova, mas a recordação de uma verdade que já estava latente na alma.

É tentador pensar que a capacidade de recordar seja simplesmente uma faculdade superior à memória. Mas a questão é mais complexa.

O ato de recordar é, ao mesmo tempo, uma atividade superior e uma prova de nossa condição caída. A necessidade da anámnēsis pressupõe que houve esquecimento.

A própria possibilidade de “voltar para casa” pressupõe que, em algum momento, fomos afastados dela.

Nesse sentido, a memória perfeita, entendida como um estado no qual o esquecimento sequer pode ocorrer, seria superior à própria faculdade de rememorar. O homem que precisa recordar ainda é um homem que esqueceu.

Talvez seja justamente por isso que seja tão interessante observar como, tanto na Índia quanto na Grécia, a religião funciona também como uma espécie de rudimento de psicologia e metafísica. Os estados da alma, suas distrações, seus desejos, suas quedas e seus despertares são descritos por meio de imagens cosmológicas.

Na tradição grega, essa ideia encontra uma personificação particularmente poderosa em Mnemósine, a deusa da memória.

Mnemósine é filha de Urano e Gaia, irmã de Cronos e do Oceano.

Sua genealogia já é, por si mesma, profundamente simbólica.

Ao lado de Cronos, ela estabelece uma relação entre tempo e memória.

Cronos representa o tempo que devora, que flui, que produz a impermanência e conduz todas as coisas para o passado. Mnemósine, ao contrário, representa a força que resiste a esse apagamento. Enquanto o tempo destrói o presente ao transformá-lo em passado, a Memória preserva aquilo que passou.

Ela é, de certa maneira, uma resistência à morte.

Oceano, por sua vez, representa o fluxo incessante, o movimento contínuo do devir. Tudo passa, tudo se transforma. A memória aparece justamente como a capacidade de conservar uma forma, uma identidade ou um significado em meio a esse fluxo.

Na mitologia grega, Mnemósine é também mãe das Musas.

Isso é particularmente importante.

Quando o poeta é inspirado pelas Musas, ele não está simplesmente produzindo versos. Na imaginação religiosa grega, ele bebe de uma fonte que remonta à própria Mnemósine. A poesia torna-se, então, um acesso privilegiado à memória. Mas não à memória no sentido banal de recordar acontecimentos particulares. O poeta inspirado recorda as origens, o tempo mítico, os primórdios, as genealogias, os feitos dos deuses e dos heróis. Ele alcança, ainda que por um instante, aquilo que está para além do presente imediato.

A poesia se orienta ao “passado” illud tempus. Ela procura o princípio, a origem, aquilo que existia antes que o mundo se tornasse aquilo que agora percebemos. Nesse sentido, a inspiração poética guarda uma curiosa semelhança com a experiência religiosa. Ambas podem ser compreendidas como formas de ascese contra o esquecimento.

O poeta, por um breve instante, deixa de estar completamente perdido no deserto. A linguagem torna-se uma espécie de orientação. As Musas “retiram a venda de seus olhos” e apontam uma direção, tal como o viajante compassivo do Chāndogya Upaniṣad.

Assim como o homem do Chāndogya Upaniṣad não precisa descobrir uma nova casa, o poeta não cria necessariamente um mundo novo. Em sua forma mais profunda, ele revela novamente o mundo que sempre existiu.

Talvez seja esse o ponto em que religião, filosofia e poesia finalmente se encontram.

Todas elas podem ser compreendidas como exercícios de rememoração. Todas tentam interromper, ainda que por um instante, o fluxo que nos arrasta; retirar a venda que nos impede de ver; silenciar as distrações que nos dispersam; e devolver ao homem alguma lembrança de sua origem.

O problema fundamental talvez não seja, portanto, descobrir para onde devemos ir, mas lembrar de onde viemos.

O homem perdido no deserto não precisa inventar uma cidade. Precisa apenas reencontrar o caminho.

E talvez toda verdadeira ascese seja, no fundo, isso: um esforço para voltar para casa antes que o esquecimento se torne completo.

Comente aqui

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter Semanal

Categorias

Asssuntos

Posts

Último Episódio

Quem faz

O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

O Homem de Vime e os Druidas na Periferia da História
Os druidas constituíam a elite intelectual, religiosa, médica, educacional e...
O Peso da Graça
A decadência, para René Guénon, consiste no afastamento progressivo dos...
Brasil, Mormaço Colonial e Sinuosidade Lusitana
Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda analisa a formação...
Écloga I – Virgilio e o Homem Afortunado pelos Deuses
Écloga I é o primeiro poema das Éclogas de Virgílio....
Rolar para cima