“Fantasia” é o quarto álbum de estúdio da banda francesa SLIFT, lançado em 5 de junho de 2026 pela Sub Pop Records.
Foi o primeiro trabalho da banda que ouvi e, sem dúvidas, um dos melhores discos de rock que escutei neste ano.
Trata-se de um álbum conceitual inspirado, segundo Jean Fossat, vocalista e principal compositor do grupo, pelo realismo fantástico de Jorge Luis Borges.
A narrativa acompanha um andarilho estrangeiro que chega à cidade fictícia de Fantasia em busca de abrigo. A metrópole é governada por tiranos e retratada como um espaço corroído pelo medo, pelo conformismo e pela xenofobia. À medida que sua ordem social começa a desmoronar, os habitantes elegem o recém-chegado como bode expiatório, responsabilizando-o por uma crise que já existia muito antes de sua chegada.
Há uma tensão particularmente interessante no próprio nome dessa cidade. “Fantasia” evoca algo lúdico, imaginativo e quase infantil, mas o universo construído pelo álbum é brutalmente concreto.
Essa oposição entre expectativa e realidade atravessa toda a obra.
A extraordinária arte da capa reforça esse paradoxo. A criatura retratada lembra um artrópode marinho de aparência alienígena. Embora pareça saída de um universo fantástico, trata-se de um organismo perfeitamente terrestre. Assim como acontece ao longo de todo o disco, o estranho não vem de outro mundo. Ele sempre esteve diante de nós, oculto sob a aparência do cotidiano.
Musicalmente, o álbum traduz esse conceito por meio de uma combinação poderosa entre um stoner rock cru, pesado, árido e sufocante, e um blues rock abrasivo. Sobre essa base, surgem elementos de space rock e uma psicodelia hipnótica que instauram uma permanente sensação de torpor, desgaste, paranoia e tensão.
Jean Fossat canta com uma fúria desesperada, como se cada interpretação fosse atravessada por um sentimento constante de urgência. As guitarras carregadas de fuzz possuem uma textura áspera, quase arenosa, enquanto baixo e bateria sustentam uma massa sonora densa e opressiva. Os teclados aparecem como uma camada atmosférica que amplia o estranhamento, tornando a experiência simultaneamente etérea e claustrofóbica.
O aspecto mais impressionante, porém, é a forma como a música parece antecipar aquilo que a narrativa verbaliza. Antes mesmo que a história seja explicitada pelas letras, as longas passagens instrumentais já comunicam seu estado de espírito. Cada riff áspero, cada explosão sonora e cada repetição obsessiva parecem traduzir a lenta deterioração de uma sociedade que se consome por dentro, tornando o conceito do álbum algo que não apenas se compreende, mas que se experimenta.