O disco Can Such Delightful Times Go On Forever? é o trabalho mais recente do projeto solo The Soft Pink Truth, conduzido por Drew Daniel, conhecido também por integrar a dupla Matmos. Aqui, Daniel leva seu percurso artístico a um ponto de inflexão particularmente radical.
Se em outros momentos de sua discografia havia um diálogo mais direto com as pistas de dança, com estruturas ligadas à house e à eletrônica experimental mais rítmica, neste álbum ele praticamente abandona qualquer vestígio de pulsação clubber. O que surge em seu lugar é uma arquitetura sonora que transita entre a música clássica moderna, a chamber music, o pós-minimalismo e o experimentalismo contemporâneo. Trata-se de um deslocamento estético significativo, que substitui a repetição hipnótica das batidas por uma escrita de câmara marcada por tensão, silêncio e suspensão.
A base do disco é majoritariamente acústica. Cordas, harpas, pianos e instrumentos de sopro formam o corpo das composições, conferindo-lhes uma materialidade orgânica e quase tátil. Os elementos eletrônicos não desaparecem, mas deixam de ser protagonistas. Eles surgem como interferências sutis, uma espécie de névoa digital que se infiltra nos arranjos e tensiona a pureza dos timbres tradicionais. O resultado é um equilíbrio instável entre o que soa belo e o que soa inquietante.
Existe, de fato, uma beleza evidente no disco. Mas ela nunca é plenamente confortável. Ela convive com a dissonância experimental, com pequenas fraturas harmônicas que desestabilizam qualquer expectativa de serenidade contínua. Essa fricção é justamente o que torna a experiência estética tão interessante.
Escutei o álbum com atenção em três momentos distintos, e cada audição revelou um rosto diferente da obra.
Na primeira vez, fui tomado sobretudo pela beleza. As texturas acústicas me pareceram delicadas, quase luminosas, como se o disco fosse um exercício de contemplação sensível. A dissonância estava ali, mas funcionava como detalhe, como sombra necessária para realçar a luz.
Na segunda audição, porém, a percepção mudou. Os momentos de tensão e estranhamento se impuseram com mais força. As dissonâncias, que antes me pareciam sutis, ganharam relevo. O disco se tornou mais áspero, menos imediatamente encantador. Foi como se a estrutura interna das composições se revelasse de modo mais cru.
Já na terceira escuta, algo se reorganizou novamente. A beleza voltou a se sobressair, mas não da mesma maneira da primeira vez. Os aspectos acústicos ganharam mais cor, mais profundidade tímbrica. Passei a perceber com maior nitidez a riqueza dos arranjos, o diálogo entre os instrumentos, a respiração interna das peças. Não era a mesma impressão inicial de encanto imediato, mas uma beleza mais complexa, amadurecida pela tensão previamente assimilada.
A força do disco, ao meu ver, está justamente nessa característica oscilante. Ele não se esgota em uma única leitura. Cada audição parece deslocar o centro de gravidade da experiência, ora privilegiando a doçura, ora a fratura, ora o detalhe estrutural. Há uma originalidade nessa capacidade de se reconfigurar diante do ouvinte atento.
Fico com a impressão de que, em uma quarta audição concentrada, surgiria ainda uma nova experiência estética, distinta das anteriores. Poucos discos sustentam esse tipo de mobilidade perceptiva. E é talvez nesse movimento contínuo entre beleza e dissonância, entre o acústico e o digital, que reside a singularidade mais duradoura de Can Such Delightful Times Go On Forever?.