Esses dias assisti ao famoso e controverso Duna, dirigido por David Lynch.
Baseado no romance de Frank Herbert, o filme acompanha a trajetória de Paul Atreides, herdeiro de uma casa nobre enviada ao planeta desértico Arrakis, única fonte da especiaria melange, substância que prolonga a vida e possibilita a navegação interestelar.
Desde o lançamento, o filme foi acusado de ser excessivo, confuso e estruturalmente problemático. O próprio Lynch o considera seu maior fracasso, principalmente por não ter tido controle sobre o corte final. O estúdio interferiu diretamente na montagem, acelerou o ritmo da narrativa, incluiu narrações explicativas em off e impôs um desfecho mais acessível ao grande público.
Em relação à adaptação, o longa modifica pontos centrais do livro. O final transforma Paul em uma figura quase divina, atenuando o alerta de Herbert sobre os perigos do messianismo e do fanatismo político e religioso. Com isso, parte do núcleo temático do romance é deixada de lado em favor de uma abordagem mais heroica e convencional.
Também é importante considerar o contexto da indústria cinematográfica naquele momento. O enorme sucesso de Star Wars reacendeu o interesse dos estúdios por grandes épicos espaciais e abriu espaço para projetos ambiciosos de ficção científica. Nesse cenário, a adaptação do romance de Herbert parece ter sido menos um gesto de fidelidade ou celebração da obra original e mais uma tentativa de repetir, ou ao menos se aproximar, daquele fenômeno comercial.
O visual do filme é um ponto controverso. Ao mesmo tempo que soa grandioso e original, sua opulência acaba revelando certa precariedade. Na tentativa de criar outro tempo e outro mundo, muitos efeitos especiais denunciam sua própria limitação histórica. É um filme que, nesse aspecto, envelheceu mal.
Isso não significa que faltem boas ideias visuais. Há algo de barroco, teatral e decadente na obra. A estética é quase operística, marcada por excessos ornamentais, saturação de cores e exuberância arquitetônica.
De certo modo, o filme antecipa esteticamente propostas que mais tarde apareceriam em Brazil, de Terry Gilliam, e em O Quinto Elemento, de Luc Besson.
É verdade que essa opulência policromática não era totalmente inédita. Antes dele, produções como Flash Gordon e Barbarella já exploravam cenários extravagantes, cores saturadas e figurinos exuberantes, muitas vezes assumindo um tom camp ou kitsch.
Em Duna, o elemento kitsch também está presente, especialmente nos excessos visuais, mas ele não resume a proposta estética. Lynch parte dessa opulência quase caricatural e a transforma em algo mais inquietante e grotesco, dialogando inclusive com certa sensibilidade do horror corporal.
Em resumo, apesar de seus defeitos evidentes, continuo simpatizando com o filme e fico satisfeito que ele tenha existido.
Duna de David Lynch não é tão ruim quanto parece.