Thirst (título original: Bakjwi, 2009) é um filme de terror sobrenatural dirigido por Park Chan-wook, cineasta consagrado por obras como Oldboy e A Criada.
Trata-se de um filme de vampiros que combina horror, drama psicológico e dilemas morais profundos. A narrativa acompanha Sang-hyun, interpretado por Song Kang-ho, um padre católico profundamente devoto que, em um gesto de sacrifício, voluntaria-se para um experimento médico destinado a encontrar a cura para um vírus mortal chamado Emmanuel. O procedimento fracassa. Sang-hyun morre, mas é ressuscitado após uma transfusão de sangue acidental que o transforma em vampiro.
A partir desse momento, ele passa a ser atormentado por uma sede incontrolável. Tentando preservar algum resquício de moralidade, alimenta-se apenas de bolsas de sangue ou de pacientes em coma, evitando matar diretamente.
Ainda assim, sua fé e seus princípios são colocados sob constante tensão.
Esse conflito se intensifica quando Sang-hyun se envolve com Tae-ju, vivida por Kim Ok-bin, a esposa infeliz de um amigo de infância.
O relacionamento entre os dois rapidamente se converte em uma espiral de desejo, culpa, assassinato e degradação moral.
Inspirações e decisões artísticas
O filme é livremente inspirado no romance francês do século XIX Thérèse Raquin, de Émile Zola, transportando a trama de traição e crime para a Coreia do Sul contemporânea, sob uma lente sobrenatural.
Na história original, ambientada na França, acompanhamos Thérèse, filha de um capitão francês com uma mulher africana. Criada pela tia, Madame Raquin, ela cresce ao lado do primo Camille, um homem frágil e constantemente doente.
Desde jovem, Thérèse é obrigada a se casar com Camille, em um casamento sem afeto, o que a condena a uma existência monótona e sufocante.
Essa rotina é quebrada com a chegada de Laurent, amigo de infância de Camille. Vigoroso e dominado por apetites intensos, Laurent desperta em Thérèse desejos até então reprimidos. Os dois iniciam um caso apaixonado que parece oferecer a ela uma possibilidade de liberdade.
Consumidos pelo desejo e enxergando Camille como o único obstáculo à união dos dois, Thérèse e Laurent planejam e executam seu assassinato, afogando-o durante um passeio de barco.
O crime, porém, não traz a felicidade esperada. Em vez de alívio, o casal passa a ser atormentado por um terror íntimo, marcado pelo remorso e por alucinações com o corpo em decomposição de Camille.
Aos poucos, o medo e a culpa corroem a relação, transformando a paixão em ódio mútuo e conduzindo a um desfecho trágico e inevitável: o suicídio do casal.
Park Chan-wook se apropria desse material literário para investigar o colapso ético de seus personagens, mais do que para construir um filme de gênero convencional.
O cineasta já afirmou que não partiu da ideia de fazer um filme de vampiros. Seu interesse inicial era retratar um padre católico em declínio moral. O vampirismo surge apenas como um dispositivo narrativo para materializar essa ideia com mais precisão.
Tradicionalmente, o vampirismo funciona como metáfora do desejo carnal incontrolável, e aqui não é diferente. Thirst é um filme intensamente sexual. Park enfatiza detalhes sensoriais incomuns e até fetichistas, como o toque dos pés e o som intenso da respiração ofegante da relação sexual, criando uma atmosfera orgástica e de intimidade extrema.
Em certos momentos, a força sexual do filme pode ser interpretada como algo libertador, um retorno acrítico às instâncias mais primitivas da psique, onde residem impulsos e desejos elementares.
O vampiro, nesse sentido, representa a sombra, aquilo que a civilização nos obriga a esconder. A fome não é apenas por sangue, mas por tudo aquilo que a vida civilizada e religiosa proibiu Sang-hyun de experimentar: agressividade e luxúria.
Ao mesmo tempo, o filme também evidencia o caráter destrutivo e incontrolável desse impulso. O vampirismo não é apresentado como celebração hedonista vulgar. Pelo contrário, sua violência e seu potencial de aniquilação impedem qualquer romantização simplista, ele é dionisíaco no sentido mais exato do termo.

A aflição como elemento narrativo
Thirst é um filme profundamente aflitivo. A representação do Vírus Emmanuel contribui de forma decisiva para esse efeito. Park não poupa o espectador de planos detalhados das bolhas e feridas que cobrem o corpo do padre. A pele em decomposição e a sensação constante de apodrecimento físico reforçam a ideia de que o vampirismo é tratado como patologia, uma infecção que corrói o hospedeiro de dentro para fora.
A estética hospitalar do filme intensifica esse desconforto. O ambiente médico não aparece apenas como cenário, mas como extensão visual do filme inteiro. A iluminação fria e artificial, presente em diversos espaços, cria uma atmosfera clínica e impessoal. Os cenários brancos são recorrentes e servem para destacar a intrusão violenta do sangue.
Park Chan-wook se recusa a higienizar o horror. Sang-hyun não morde pescoços com elegância. Ele suga sangue de bolsas plásticas ou lambe feridas abertas, transformando o ato em algo desesperado, grotesco e humilhante. A câmera não desvia o olhar. Ela obriga o espectador a encarar tanto o sofrimento das vítimas quanto o esforço físico dos assassinos.
Esse efeito é amplificado pelo design de som, extremamente próximo e “úmido”. O espectador ouve cada gole, cada respiração e o contato da pele. Essa proximidade sensorial cria uma sensação de claustrofobia. Somos forçados a ficar perto demais de atos que a nossa cultura considera repulsivos ou privados.

O sexo como experiência estética absoluta
Há, ao longo do filme, uma fronteira borrada entre horror e êxtase. Do ponto de vista biológico, medo e desejo sexual compartilham respostas físicas semelhantes, como aceleração dos batimentos cardíacos, respiração ofegante e liberação de adrenalina e dopamina. Quando o cinema combina esses estímulos, produz um estado de hiperestimulação sensorial, no qual o repulsivo e o excitante começam a se confundir. Trata-se do fenômeno conhecido como excitação por transferência.
Thirst transforma o corpo em um laboratório de fluidos, fazendo do ato de assistir uma experiência quase carnal e proibida. Sangue, saliva e feridas nos perturbam porque revelam a vulnerabilidade do corpo, sua incapacidade de permanecer íntegro. Ainda assim, existe um fascínio em observar aquilo que deveria permanecer oculto.
A civilização se estrutura a partir do controle dos instintos, não matar, não ser promíscuo, manter a higiene. Ao mergulhar o espectador em um caos de sangue, sons viscosos e sexo, Park Chan-wook implode esses pilares e expõe sua fragilidade.
Em suma, Thirst é provavelmente um dos filmes de vampiro mais viscerais já realizados. Esse fato se torna ainda mais significativo quando lembramos que se trata de uma produção sul-coreana, um contexto cultural que raramente associamos aos mitos clássicos do vampirismo. Em comparação, muitos filmes de vampiro, inclusive europeus, parecem excessivamente limpos ou domesticados.