La Belleza é o quarto disco da artista colombo-canadense Lido Pimienta e foi lançado em 16 de maio de 2025 (dois dias antes do meu aniversário).
A obra apresenta um gesto artístico estruturado sobre um diálogo contínuo entre tradição e ruptura.
A coluna vertebral do álbum é a colaboração com a Orquestra Filarmónica de Medellín, cujos arranjos conferem uma espessura sinfónica que não funciona como simples ornamento. Eles participam de modo decisivo da identidade conceptual do disco, sustentado pela articulação eclética entre música clássica ocidental, cantos indígenas Wayúu, ritmos afro-colombianos e o dembow.
O mérito de Pimienta não está apenas na reunião desses elementos, mas na forma como ela os reconfigura.
A sua voz opera como mediadora entre essas esferas sonoras, oscilando entre sussurros quase litúrgicos e passagens amplas e poderosamente projetadas. Essa amplitude vocal é também expressão da amplitude cultural e sincrética que o álbum reivindica.
Há em La Belleza um gesto simultaneamente estético e político.
Podemos, sim, dizer que Pimienta confronta a “noção eurocêntrica de beleza” que estruturou o cânone musical moderno e que operou, ao longo dos séculos, como mecanismo de distinção social e hierarquização cultural.
No entanto, em vez de adotar uma postura de negação completa desse legado ou de reduzir a questão a um discurso identitário ressentido, ela escolhe um caminho mais complexo. Apropria-se das estruturas da música europeia, absorve sua herança simbólica e reorganiza esse repertório dentro de uma matriz afro-indígena e caribenha.
Violinos, harpas e corais coexistem com tambores, chocalhos, marimbas e batidas de dembow dentro de uma arquitetura que é transformadora precisamente porque é conciliadora apenas na superfície. O que parece conciliação é, na verdade, reelaboração crítica.
Esse movimento remete à genealogia modernista latino-americana, sobretudo ao ideal antropofágico. Assim como os modernistas no Brasil defenderam a devoração (existe essa palavra?) crítica da cultura europeia como modo de produzir algo novo, Pimienta realiza aqui um canibalismo cultural que não romantiza o passado nem rejeita a técnica ocidental. Ela a assimila e a reconduz a seus próprios fins expressivos, mesmo sem pertencer ao contexto brasileiro que formulou esse paradigma.
Ao trabalhar com uma orquestra sinfónica, Pimienta intervém num dos símbolos centrais da hegemonia estética europeia. A sua entrada nesse território não é concessão à tradição, mas reivindicação. Ela ocupa esse espaço e exige o direito de transformá-lo em veículo para narrativas e sensibilidades que antes eram tratadas como marginais.
A inversão que ela promove torna-se especialmente clara nos arranjos. Violinos e violoncelos subordinam-se ao pulso da clave, ao acento do dembow e às inflexões dos cantos Wayúu. Observa-se aqui uma reorientação completa da hierarquia musical, pois o aparato sinfónico deixa de comandar a forma e converte-se em instrumento de expansão dos imaginários afro-indígenas.
Trata-se de uma operação estética radical que desafia as classificações simplistas da indústria musical, que costuma relegar artistas como Pimienta a categorias genéricas como “world music” ou folk, classificações que historicamente funcionam como dispositivos de exotização.
O projeto artístico de Lido Pimienta em La Belleza não consiste em rejeitar o legado europeu nem em reproduzi-lo passivamente. Ela realiza uma digestão consciente desse repertório, transformando-o em matéria orgânica da sua identidade e do seu território cultural.
A música europeia não é negada, mas descentrada, reconfigurada e colocada a serviço de uma visão estética que nasce das margens coloniais e não do centro.
No conjunto, La Belleza constitui uma demonstração vigorosa de agência cultural. Nesse movimento, redefine aquilo que pode ser entendido como beleza e complexidade e reafirma o lugar das culturas afro-indígenas na construção de uma estética autêntica e contemporânea.