Mar da Deriva, terceiro álbum de estúdio da dupla brasileira Vauruvã, formada por Caio Lemos e Bruno Augusto Ribeiro e lançado em maio de 2025, aprofunda de maneira ambiciosa uma estética híbrida que entrelaça Black Metal, Folk e elementos progressivos.

Lemos assume toda a arquitetura instrumental – guitarras, baixo, bateria, sintetizadores e percussão – além da produção principal, enquanto Ribeiro assina as letras e divide os vocais com Lemos.

As três faixas do disco são longas, densas e complexas. A abertura, Legado, com seus 9 minutos e 36 segundos, funciona como um rito de passagem inicial, instaurando a atmosfera marítima e turbulenta que sustenta todo o álbum. Os Caçadores, a segunda faixa, estende essa lógica por quase 11 minutos, ampliando tanto a estrutura narrativa quanto o campo de tensões entre violência e contemplação. Por fim, As Selvas Vermelhas no Planeta dos Eminentes, com cerca de 15 minutos e meio, é uma espécie de viagem derradeira, na qual a banda leva ao limite sua proposta estética: camadas que colidem, melodias que surgem e se desfazem como correntes oceânicas em choque.

Musicalmente falando, o disco articula elementos de black metal, metal progressivo e música folclórica brasileira, mas essa mistura nunca aparece como colagem arbitrária. Trata-se, antes, de uma tessitura sonora em que forças opostas se entrelaçam. As letras, marcadas por um simbolismo difuso, orbitam temas como ancestralidade, transcendência, espiritualidade e reflexões sobre as desordens e ambiguidades do mundo contemporâneo.

Todo o álbum parece navegar nesse ponto de fricção: a busca por sentido em meio ao caos.

A relação entre temáticas etéreas e uma estética sonora caótica, agressiva e abrasiva não é inédita no black metal, especialmente nas vertentes avant-garde e progressiva.

Em Mar da Deriva, essa combinação ganha uma dimensão quase dialética. O black metal cumpre a função de tese, de matéria bruta – um elemento terreno, mineral, geológico. A distorção saturada, os vocais guturais, a velocidade e o ataque rítmico criam um ambiente de angústia, turbulência e brutalidade.

As temáticas mais etéreas funcionam como uma antítese vertiginosa: janelas para um além instável, um oceano que nunca se fixa, mas que se insinua pelas brechas das composições. Elas apontam para a busca de um horizonte espiritual, de uma transcendência que não se articula como fuga, mas como confronto com aquilo que excede o humano.

A crueza do black metal não anula esse impulso transcendental; ao contrário, cria uma síntese que o acentua. A agressividade aparece como a inscrição corporal da dor da busca, o atrito inevitável entre o desejo de ultrapassar o real e a resistência imposta pelo próprio real. Quando surgem passagens atmosféricas ou acústicas, quase suspensas, elas funcionam como pequenas aberturas de luz – instantes de contemplação que não suavizam a experiência, mas a aprofundam ao colocar em perspectiva o peso que as circunda.

No conjunto, o álbum trabalha a ideia do sublime terrível: aquela sensação em que beleza e pavor se entrelaçam diante do imensurável.

A metáfora marítima não é apenas temática; é estrutural. O disco soa como o encontro entre correntes profundas, como o instante em que o mar deixa de ser superfície e revela seu abismo. Em Vauruvã, o caos sônico não destrói a busca pela transcendência: torna essa busca mais urgente, mais carregada de risco e significado.

Assim, em vez de um contraste simples entre agressividade e espiritualidade, Mar da Deriva propõe uma complementaridade radical. O black metal funciona como o veículo visceral que ancora ideias que, se apresentadas apenas por meio de ambientações etéreas ou influências clássicas, poderiam soar excessivamente abstratas ou rarefeitas. Aqui, o peso, a fricção e a violência sonora operam como motores da experiência estética, permitindo que o etéreo não se dissolva, mas ganhe corpo.

O resultado é um álbum que respira como o próprio oceano: vasto, imprevisível e sempre à beira de revelar algo que ainda não pode ser nomeado.

Clique aqui para ouvir no Bandcamp.

 

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