Confusion Gate, o sétimo álbum do Yellow Eyes, lançado em 31 de outubro de 2025, é um exemplar paradigmático da evolução do black metal, que há muito tempo vem se consolidando como o subgênero mais eclético e interessante do estilo.
O disco é marcado por uma fusão de elementos noventistas do gênero com dissonâncias etéreas, resultado da combinação entre texturas granuladas e uma gravação que remete a uma atmosfera claustrofóbica, de isolamento primal, evocando especialmente bandas como Burzum. Aqui, os riffs e os blast beats de black metal zumbem e se contorcem em escalas congestivas, como se simulassem uma tempestade de neve, uma hostilidade glacial que atravessa tudo como um vento ártico.
Ao mesmo tempo, o álbum ecoa uma eterealidade espectral, próxima de um pesadelo diáfano. Trata-se de uma eterealidade fria, construída por harmônicos flutuantes que se movem como névoa e conferem ao conjunto um senso de vastidão opressiva. Sim, o disco me deu uma sensação de “frio”.
O álbum conta com dez faixas, algumas delas pequenas vinhetas que funcionam como interlúdios atmosféricos. Em termos líricos, apresenta um conceito que se desenvolve como continuação de Master’s Murmur (2023). A narrativa acompanha um viajante, figura errante marcada pela perda e pela desorientação, que após emergir das chamadas terras baixas é atraído para uma jornada ascendente por uma paisagem misteriosa e inóspita, guiado por uma presença espectral que o conduz montanha acima. Ao longo do percurso, ele confronta três entidades primordiais, cada uma representando um limiar de terror e revelação, até culminar na chegada ao portal de confusão, ponto simbólico e transcendental que encapsula a essência temática de sua trajetória.
É difícil descrever essas entidades, pois a banda as retrata de modo vago e impressionista, alinhado à noção do indivisível lovecraftiano; não possuem nome, forma definida ou limites compreensíveis. A primeira entidade (The Thought of Death) surge nas encostas iniciais como um inseto zumbindo ou uma sombra primal que invade a mente do viajante, obrigando-o a encarar a mortalidade não como abstração, mas como presença física e inescapável. A segunda (I Fear the Master’s Murmur) aparece como uma figura espectral que penetra a consciência e devora falsos consolos. A terceira (The Scent of Black Mud) manifesta-se nas encostas finais como um odor de decomposição orgânica, metáfora do próprio tempo consumindo a matéria.
A história não é linear, mas fragmentada entre sonho febril e reflexões filosóficas dispersas. O viajante, ao que tudo indica, busca uma transcendência sem Deus e encontra ao final apenas a loucura e o vazio de sentido. Sua ambição de eternidade não se conforma com a própria finitude, evidenciada pela passagem do tempo, a terceira entidade, que se implacavelmente se impõe.
Confusion Gate é, no fundo, uma anti-peregrinação. O sujeito deseja eternidade, rejeita a finitude, escala a montanha em busca de um significado maior e, no topo, o tempo lhe sussurra com frieza glacial: “você nunca vai escapar de mim”.