Historicamente, a tuba teve um papel central nos primórdios do jazz. Nas ruas de Nova Orleans, nos desfiles marciais e no Dixieland, ela funcionava como o motor grave que sustentava a harmonia e organizava o pulso coletivo. Parte disso se devia à sua projeção sonora, ideal para apresentações ao ar livre; parte ao fato de que, nas primeiras gravações, a tuba era captada com maior definição do que o contrabaixo.
A virada ocorre com o swing e, sobretudo, com o bebop. A demanda por linhas de walking bass mais velozes, fluidas e cromaticamente móveis fez do contrabaixo o novo centro gravitacional da seção rítmica. A tuba, com seu volume físico considerável e sua mecânica menos ágil, foi gradualmente empurrada para as margens.
Algumas intervenções notáveis, porém, atravessaram o século. Tuba Sounds, de Ray Draper, já nos anos 1950, revelou um potencial expressivo que contrariava a ideia de limitação técnica. Do mesmo modo, Bill Barber, nos arranjos de Gil Evans para Miles Davis — em Birth of the Cool, Porgy & Bess e Sketches of Spain — demonstrou como a tuba podia ser estruturante numa paleta orquestral, adicionando densidade tímbrica, calor e precisão harmônica. Ainda assim, esses episódios permaneceram como exceções. A tuba continuou a ser vista como instrumento secundário, quase sempre restrito ao reforço grave.
É nesse contexto que Theon Cross, desde 2019, tem desempenhado um papel decisivo no resgate contemporâneo da tuba. Desde o lançamento de seu aclamado álbum de estreia Fyah, Cross tornou-se conhecido por expandir radicalmente as possibilidades sonoras do instrumento, elevando-o novamente ao primeiro plano do discurso musical.
Affirmations: Live at Blue Note aprofunda esse gesto. Trata-se de seu primeiro álbum ao vivo, o que por si só é significativo. Gravar ao vivo — especialmente num espaço lendário como o Blue Note, verdadeira Meca do jazz — exige do instrumentista uma projeção sonora impecável, articulação clara e presença física que não dependem dos artifícios típicos de estúdio (microfonação próxima, compressão, equalização). Aqui, a tuba precisa afirmar sua autoridade em tempo real.
Ao demonstrar que a tuba pode “segurar o palco” como voz principal sem depender de correções técnicas, Cross confronta diretamente um dos motivos históricos de seu declínio: as dificuldades de gravação que, no início do século XX, favoreceram o contrabaixo. O resultado reforça, de maneira categórica, o protagonismo da tuba.
Além disso, gravar no Blue Note insere o disco numa linhagem histórica de performances lendárias. Com Affirmations, Cross não apenas ocupa esse espaço simbólico — ele o reconfigura ao colocar a tuba no centro do cânone, disputando a narrativa principal do jazz, da qual o instrumento esteve afastado por décadas.
Acompanhado pelo saxofonista Isaiah Collier (uma das vozes mais intensas de sua geração), pelo baterista James Russell Sims e pelo guitarrista Nikos Ziarkas, Cross constrói um quarteto que flui entre o jazz moderno, ritmos caribenhos e pulsos oriundos da cena londrina. Trata-se de um território híbrido, sustentado por um senso de fisicalidade sonora, elasticidade rítmica e expansão da respiração instrumental. No centro dessa respiração está a tuba, que Cross maneja como se reafirmasse, a cada frase, sua capacidade de articular tanto fundamento rítmico quanto movimento melódico e energia dançante.
É precisamente contra a história de apagamento da tuba que Affirmations: Live at Blue Note se posiciona. Cross não busca apenas recolocar o instrumento em cena; ele o reimagina. Sua tuba se transforma ora em baixo percussivo, ora em voz melódica angulosa, ora em corpo sonoro que parece dialogar com a própria arquitetura do clube. Cada ataque, cada frase longa, cada dobra rítmica confirma a possibilidade de uma tuba expansiva, respirável e surpreendentemente ágil.
A linguagem de Cross une técnicas tradicionais a articulações modernas, filtradas pelo dub, pelo universo do sound system londrino e por uma estética de improvisação que favorece tensão, explosão e liberação.
No fim, o efeito estético é duplo. Primeiro, o álbum devolve à tuba a centralidade que ela teve nas raízes do jazz, porém sob uma gramática renovada — não mais como instrumento de sustentação, mas como vetor de invenção. Segundo, projeta essa centralidade para o futuro, mostrando que a tuba pode ocupar territórios antes destinados ao contrabaixo elétrico, aos sintetizadores ou ao trombone.
Affirmations é, portanto, um gesto de reposição histórica e de ruptura estética. Um disco que ilumina a força de um instrumento há muito ofuscado e que o recoloca no centro da imaginação sonora contemporânea.