All Living Things, álbum da multi-instrumentista sul-coreana Park Jiha lançado em fevereiro de 2025, é uma obra que se afirma simultaneamente como experimento sonoro, meditação e comentário estético sutil sobre a continuidade entre tradição e modernidade.

Trata-se de um disco instrumental contemplativo e imersivo, onde a música tradicional coreana (com suas inflexões modais e sua temporalidade expansiva) é entrelaçada a recursos eletrônicos contemporâneos de modo tão orgânico que a fronteira entre ambas as matrizes parece desaparecer. Ele se insere, com naturalidade, no território do pós-clássico, do ambient e do minimalismo, sem abandonar uma voz autoral reconhecível e coerente.

Park Jiha executa todos os instrumentos, o que reforça a unidade estética do álbum.

O piri (uma espécie de oboé de bambu de palheta dupla) imprime uma textura áspera e ancestral. Esse instrumento tem um som extremamente nasal, penetrante e cortante, com um vibrato natural intenso e microtonal. Ele chora, produz glissandos longos e, em volumes mais altos, chega a ser agressivo, quase rasgado, com um timbre que por vezes lembra uma gaita de fole distorcida.

O saenghwang (uma espécie de órgão de boca) adiciona um caráter quase coral, sustentando camadas harmônicas suaves que se acumulam lentamente. O som desse instrumento é semelhante ao do acordeão, com um timbre extremamente suave, aveludado, quente e ao mesmo tempo translúcido.

Já o yanggeum (um dulcimer martelado de origem sino-coreana) traz uma dimensão percussiva luminosa, frequentemente tratada com sutis efeitos eletrônicos que amplificam sua ressonância natural.

A artista também recorre à flauta, ao glockenspiel, a sinos, a vocais discretíssimos e à programação eletrônica, compondo uma paisagem sonora onde cada timbre ocupa um espaço narrativo próprio.

As texturas das músicas são quase táteis, como se convidassem o ouvinte a perceber o som enquanto presença material, e não apenas enquanto acontecimento temporal.

Há uma qualidade etérea e calmante que, no entanto, não dissolve o rigor estrutural. Pelo contrário, o minimalismo aqui não é uma renúncia à forma, mas uma meditação sobre sua própria elasticidade.

O diálogo entre sonoridades acústicas e eletrônicas cria um contraponto que opera menos pela oposição e mais pela continuidade sensorial, sugerindo uma estética da transfiguração: aquilo que é tradicional ressoa no contemporâneo sem perder sua identidade, e aquilo que é eletrônico adquire a aura de uma antiga cerimônia religiosa.

Segundo a compositora, as faixas seguem uma jornada que espelha os ciclos naturais — nascimento, crescimento, transformação, declínio e morte — entendidos como etapas de uma progressão de esperança. Títulos como First Buds, Grounding e Blown Leaves evocam essa coreografia orgânica, aproximando o álbum de um pensamento estético que concebe a arte não como representação da natureza, mas como prolongamento de seus ritmos internos. Nesse sentido, All Living Things se inscreve em uma tradição contemporânea que pensa a música como ambiente, como ecologia sensível, como espaço em que o tempo é moldado para permitir que o ouvinte entre em contato com uma dimensão mais lenta e profunda da experiência.

O resultado é um disco de delicadeza rara, cuja força provém justamente de seu recuo: uma obra que parece sussurrar, mas cuja arquitetura sonora revela um rigor composicional e uma intuição estética que a colocam entre os experimentos mais interessantes da música pós-clássica recente.

Links:

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter

Recomendado

A Espera, de Keum Suk Gendry-Kim
Na Praia à Noite Sozinha

Podcast Recente

Rolar para cima