Bug, lançado no Brasil como Possuídos, é um filme americano de terror psicológico dirigido por ninguém menos que William Friedkin, o diretor de O Exorcista.

O longa é uma adaptação direta de uma peça homônima escrita por Tracy Letts, que também assina o roteiro adaptado para o cinema.

Neste filme, acompanhamos a história de Agnes White, interpretada pela incrivelmente sexy Ashley Judd, uma garçonete solitária e fragilizada que vive em um quarto de motel barato e isolado em Oklahoma.

Ela tenta desesperadamente se esconder de seu ex-marido abusivo e violento, Jerry Gross, interpretado por Harry Connick Jr., que acaba de sair da prisão.

A vida de Agnes muda drasticamente quando uma amiga lhe apresenta Peter Evans, interpretado por Michael Shannon, um veterano de guerra excêntrico e paranoico.

À medida que os dois se envolvem romanticamente, Peter começa a desenvolver delírios de que o quarto de motel onde estão hospedados sofre uma infestação invisível de insetos, supostamente desenvolvidos pelo governo americano.

Em pouco tempo, a paranoia de Peter contagia Agnes, arrastando ambos para uma espiral de insanidade e colapso psicológico.

O filme não possui uma dimensão sobrenatural, como O Exorcista, e se concentra muito mais na ideia de folie à deux, ou “delírio a dois”, em que o delírio psicótico de uma pessoa é progressivamente compartilhado e aceito por outra.

William Friedkin tem grande mérito em nos fazer acreditar na decadência mental de Agnes. Ela, além de solitária, assustada e carente, carrega o trauma de ter perdido um filho alguns anos antes, em uma loja de conveniência. Os anos se passaram e ela simplesmente desistiu de tentar encontrá-lo.

Quando Peter entra em sua vida, ele se mostra bastante carinhoso e atencioso com ela. Existe uma boa química entre os dois, e acabamos aceitando, sem maiores resistências, que Agnes tenha se apaixonado por ele. Afinal, ela vinha de uma relação extremamente traumática com um ex-marido abusivo que chegou a tentar matá-la.

Além disso, Peter se mostra uma pessoa bastante vulnerável durante boa parte do tempo. Isso desperta em Agnes um instinto de cuidado e proteção, quase maternal. Talvez ela esteja, dessa forma, tentando sublimar a própria sensação de fracasso em relação à maternidade.

A relação de dependência que Agnes desenvolve em relação a Peter e, consequentemente, sua contaminação pelo delírio psicótico são bastante convincentes.

Agnes carrega uma culpa devastadora e um vazio existencial crônico. Quando se tranca naquele motel, ela já se encontra em um estado de dissociação da realidade, anestesiada pelo isolamento e pelo uso de substâncias.

Peter não surge apenas como um interesse romântico, mas como uma criatura frágil que precisa ser protegida. Quando ele demonstra vulnerabilidade, o instinto de cuidado e proteção de Agnes, violentamente interrompido com o desaparecimento do filho, encontra um novo alvo.

Em troca de cuidar dele, Agnes recebe de Peter algo que Jerry, seu ex-marido abusivo, nunca lhe deu: validação, atenção, ternura e a sensação de ser necessária.

É por isso que a contaminação psicótica dela é tão orgânica e convincente para o espectador. Agnes não aceita os delírios de Peter simplesmente porque enlouqueceu do nada. Ela os aceita porque rejeitar o delírio de Peter significaria, de certa forma, rejeitar o próprio Peter.

Se ela disser que os insetos não existem, corre o risco de perder o único homem que a acolheu e a tratou com doçura em muitos anos.

Para preservar a conexão entre os dois, ela prefere abraçar a insanidade. No início, relutante. Depois, passa ela mesma a acreditar naquilo que Peter acredita.

A paranoia se torna o cordão umbilical que une os dois.

No final, a decadência mental de Agnes pode ser interpretada como um ato trágico de devoção e desespero absoluto.

Em suma, achei um filme muito bom.

Infelizmente, não foi um filme que teve uma recepção particularmente positiva junto ao público.

O ponto mais curioso sobre a recepção de Bug foi justamente o abismo entre a crítica e o público. Nos cinemas americanos, o público pesquisado pelo sistema CinemaScore deu ao filme uma raríssima nota “F”, a pior avaliação possível.

Muito se comenta sobre o filme ter sido mal divulgado pelos estúdios.

Aparentemente, os trailers vendiam a obra como um filme de terror comercial tradicional de Hollywood, nos moldes de “monstros e insetos assassinos nojentos” atacando pessoas.

O público comprou o ingresso esperando sustos fáceis e encontrou um terror psicológico denso, claustrofóbico e filmado quase como uma peça de teatro, praticamente todo ambientado em uma única locação.

Eis a importância de não criar expectativas.

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