The Incident é um filme mexicano de terror psicológico e ficção científica, lançado em 2014, escrito e dirigido por Isaac Ezban.
Trata-se de uma espécie de mindfuck. Acompanhamos aqui duas histórias paralelas envolvendo pessoas presas em loops espaciais.
Na primeira história, temos dois irmãos e um detetive de polícia que ficam presos na escadaria de um edifício. Não importa se sobem ou descem, eles sempre retornam ao mesmo lance de escadas.
Na segunda, temos uma família que viaja de carro por uma rodovia que se repete infinitamente. Eles passam repetidamente pelos mesmos postos e placas, sendo incapazes de avançar ou retornar.
Em ambos os cenários, um misterioso som de explosão marca o início do loop. Os recursos e objetos presentes nesses espaços, como as máquinas de venda automática na escadaria ou os itens dentro do carro, se multiplicam ou se renovam diariamente, permitindo que os personagens sobrevivam ali por décadas enquanto envelhecem.
Diferentemente de filmes como Feitiço do Tempo, os personagens não revivem o mesmo dia. O tempo corre normalmente.
Não vou negar que o filme tem uma premissa muito interessante. No entanto, sua execução, na minha opinião, poderia ser melhor.
Até poderia entendê-lo como uma crítica inteligente à vida humana contemporânea, com nossos próprios loops sendo simbolizados por metáforas visuais, como a do hamster correndo em uma roda.
Rotina, repetição, tédio, acúmulo, falta de propósito e passagem do tempo poderiam muito bem ser os temas principais do filme, ao menos superficialmente. No entanto, ele parece querer acrescentar algum elemento a mais à narrativa: um mistério que tenta costurar as duas histórias, forçando alguns plot twists e fazendo com que o espectador pense sobre o funcionamento do filme, e não sobre a rotina, a repetição, o acúmulo, a falta de propósito e a passagem do tempo.
Essa necessidade de “amarrar” as pontas e oferecer uma resposta lógica acaba enfraquecendo o impacto filosófico que o filme vinha construindo.
Nesse tipo de filme, menos é mais. Quanto menos ele conta sobre si mesmo, maior é o seu alcance.
Quando o diretor decide criar uma mitologia para justificar os loops, ele tira o foco do espectador da própria condição humana e o direciona para as engrenagens do roteiro.
Enquanto o filme se concentra apenas no tédio, no acúmulo de lixo e no envelhecimento dentro da rotina, nós nos enxergamos ali. É uma angústia universal. No momento em que o roteiro tenta ditar as “regras” de funcionamento do loop e explicar quem o controla, a história deixa de ser sobre nós e passa a ser apenas sobre aqueles personagens específicos.
Em ficções absurdistas, o mistério funciona melhor como uma força da natureza inexplicável. Ao tentar resolvê-lo, o filme reduz o enorme peso do existencialismo a um mero quebra-cabeça narrativo.
Em suma, The Incident pegou uma premissa interessante e, na minha opinião, jogou-a fora. Que falta faz um Luis Buñuel de O Anjo Exterminador ou um David Lynch de Rabbits.