Live in Philadelphia foi um álbum duplo do projeto Marshall Allen’s Ghost Horizons, lançado em maio de 2025. Mais do que um registro ao vivo, o disco pode ser entendido como um testemunho do sopro criativo de um artista que, mesmo ao se aproximar do fim de sua vida, continua a infundir vitalidade em matéria aparentemente inerte, como se reiterasse, em escala humana, um gesto ancestral de criação.

O Marshall Allen’s Ghost Horizons é um projeto musical all-star e um conjunto de jazz exploratório liderado pelo saxofonista Marshall Allen, lendário diretor da Sun Ra Arkestra, em colaboração com o guitarrista DMHotep. Concebido como uma série contínua de concertos apresentada pela organização Ars Nova Workshop em sua sede, o Solar Myth, na Filadélfia, o projeto nasceu quando Allen se aproximava de seu centenário, momento em que a própria persistência do ato de tocar passa a carregar um peso simbólico particular.

Por precauções de saúde, Allen interrompeu as turnês internacionais, e o Ghost Horizons surgiu como uma solução criativa que lhe permitisse permanecer ativo em sua cidade adotiva. Mais do que uma adaptação logística, o projeto ofereceu um ambiente fértil para que ele continuasse a atuar como uma presença viva na vanguarda do jazz, soprando forma, sentido e energia em um espaço coletivo de experimentação.

Nesse sentido, Live in Philadelphia se impõe como um documento prospectivo da visão de Allen para o jazz do século XXI e como uma declaração definitiva de que ele segue sendo um de seus principais defensores. Há aqui não apenas memória ou celebração tardia, mas um impulso afirmativo, orientado para o futuro.

Uma das características centrais do Ghost Horizons é sua formação em constante mutação. DMHotep atua como curador do projeto, selecionando uma lista rotativa de músicos oriundos de diferentes universos, que vão do jazz contemporâneo ao noise experimental e ao rock. Essa instabilidade deliberada impede a cristalização de fórmulas e desafia continuamente a inventividade de Allen, colocando-o em situações sempre novas de escuta e resposta.

O projeto reúne Allen com nomes proeminentes da música experimental, incluindo saxofonistas como Immanuel Wilkins e James Brandon Lewis, os baixistas William Parker e Luke Stewart, além de músicos ligados a bandas como Yo La Tengo, representada por James McNew, The War on Drugs, com o baterista Charlie Hall, e o duo de noise Wolf Eyes.

O lançamento de Live in Philadelphia coincidiu com o 101º aniversário de Marshall Allen. O disco compila 16 faixas gravadas ao vivo ao longo dos dois primeiros anos da série de concertos, funcionando como um recorte abrangente das possibilidades abertas pelo projeto.

O resultado é um verdadeiro caleidoscópio sonoro, um álbum que infunde na música as mesmas regiões astrais que Allen, décadas antes, ajudara a inaugurar ao lado de Sun Ra. A diversidade estilística não dilui a identidade do disco. Pelo contrário, ela a reforça, revelando um núcleo criativo capaz de atravessar linguagens distintas sem se dissipar.

Temos aqui uma gama ampla, eclética e coerente de abordagens musicais, que vai do space jazz e do free bop a improvisações eletrônicas, percussão afro-cubana e incursões pelo rock. Cada colaboração acrescenta uma camada específica ao todo. A parceria com o Wolf Eyes introduz dimensões espaciais e alienígenas. O rock de James McNew e Charlie Hall injeta rispidez e tensão. Sobre tudo isso, Marshall Allen se mantém em voo constante, com uma vitalidade que impressiona ainda mais quando se considera sua idade avançada.

Sua performance no saxofone é marcada por linhas rápidas e dardejantes, além de seus característicos squeals and shrieks, que produzem interações atonais e ruidosas com os demais músicos. Allen alterna explosões curtas e agudas com um timbre ríspido e estridente, recusando qualquer gesto de contenção ou acomodação estética. Em diversos momentos, ele também recorre ao EVI, criando paisagens sonoras de viés claramente sci-fi, em diálogo direto com a herança cósmica da Arkestra.

O que se observa ao longo do disco é um artista que demonstra um desinteresse radical pela inação. Allen se mantém lúcido, atento e profundamente comprometido com o presente da improvisação. Seu gesto criativo não é nostálgico, nem contemplativo. Ele é ativo, insistente e afirmativo.

É nesse ponto que o ato de soprar deixa de ser apenas um procedimento técnico e passa a assumir um significado simbólico mais profundo. Na tradição bíblica, o sopro é o gesto divino por excelência para infundir vida no que é inanimado. No Gênesis, Deus forma o homem do pó da terra e sopra em suas narinas o fôlego de vida, transformando matéria inerte em uma alma vivente. O sopro não é apenas energia física, mas uma transferência de espírito, o ruach, termo hebraico que designa simultaneamente sopro, vento e espírito.

No Novo Testamento, essa imagem reaparece de forma redentora, quando Jesus sopra sobre os discípulos e lhes concede o Espírito Santo. O sopro, em ambos os casos, é o veículo primordial da criação e da transformação, uma força invisível que irrompe no mundo e o torna relacional, consciente e vivo.

O sopro de Marshall Allen pode ser compreendido como uma reencenação laica e artística desse gesto. Criado à imagem e semelhança do Criador, Allen também cria e transfigura. Seu fôlego não apenas movimenta o ar, mas anima a matéria sonora, conferindo-lhe vida provisória e intensa no espaço do improviso.

Dessa vitalidade emergem formas de vida musicais diversas e inesperadas. Não criaturas de carne e osso, mas entidades efêmeras, plurais e mutantes, que existem apenas no instante da performance. Assim como o relato bíblico descreve a criação como um processo de diferenciação e multiplicidade, Allen, por meio de seu sopro incansável, dá origem a um ecossistema sonoro rico, instável e profundamente vivo.

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