Poucos filmes me desorientaram tanto quanto Garota Sombria Caminha pela Noite. A primeira vez que o vi foi em uma mostra sobre cinema e feminilidade, com curadoria da minha amiga Priscila Salomão, exibida em um espaço chamado Fábrica Fêmea, aqui em Campinas.
O contexto reunia uma série de coisas desconhecidas para mim: um lugar que eu nunca havia frequentado, pessoas que eu nunca tinha visto, com exceção da Priscila, obviamente, e um filme que eu não apenas nunca tinha visto, mas para o qual também encontrava pouquíssimos paralelos dentro do meu próprio repertório.
Primeiro de tudo, é um filme iraniano (ou semi-iraniano). Eu conheço cinema iraniano. Sou fã de cinema iraniano. Cheguei, inclusive, a fazer um ciclo dedicado ao cinema iraniano no Museu da Imagem e do Som de Campinas. Ainda assim, Garota Sombria Caminha pela Noite não me lembrava em nada o neorrealismo poético de Abbas Kiarostami ou a urgência documental e política de Jafar Panahi.
A história se passa em Bad City, uma cidade-fantasma iraniana fictícia, tomada por poços de petróleo, miséria e degradação social, servindo de lar para criminosos, prostitutas e usuários de drogas.
Nesse cenário decadente, que parece um subúrbio industrial americano, uma jovem vampira solitária, interpretada por Sheila Vand, vaga pelas ruas escuras durante a noite em busca de criminosos e homens abusivos para se alimentar. No entanto, sua rotina muda drasticamente quando ela conhece Arash, interpretado por Arash Marandi, um jovem trabalhador que lida com o vício do pai. A partir desse encontro, uma delicada e sombria história de amor começa a florescer entre os dois.
Trata-se de um filme atmosférico, em preto e branco e de alto contraste, marcado por um ritmo próprio e profundamente musical, com uma trilha sonora que transita entre o rock independente e a música eletrônica.
O filme também trabalha muito bem o tempo subjetivo, desacelerando os momentos mais significativos e acelerando os momentos mais frenéticos.
Há no filme uma linguagem de fantasia sombria que parece mantê-lo suspenso entre o Oriente e o Ocidente, entre o terror e o romance, entre o western spaghetti e o expressionismo. O mais curioso é que nada disso parece aleatório. Não há a sensação de uma colagem de referências, como se a diretora, Ana Lily Amirpour, tivesse simplesmente empilhado estilos. Todas essas linguagens se articulam de maneira coesa, como se pertencessem naturalmente ao mesmo universo.
Talvez exista uma imagem que sintetize perfeitamente essa estranheza: uma vampira usando chador e descendo uma rua de skate.
Se eu descrevesse essa cena para alguém que nunca viu o filme, provavelmente ela pareceria pitoresca, excêntrica e até propositalmente aleatória, como um pastiche exótico ou uma piada.
No filme, porém, a imagem encontra uma naturalidade e uma força fora do comum.
Essa imagem excêntrica carrega significados, metáforas e ressignificações bastante interessantes. O chador, associado à obediência feminina e à modéstia islâmica, transforma-se em um manto de poder, mistério e predação. Em vez de esconder, ele revela. O skate, por sua vez, produz uma sensação de deslocamento fantasmagórico, como se ela flutuasse sobre o chão e, ao mesmo tempo, experimentasse uma espécie de liberdade.
Há um certo subtexto político e feminista nesse filme, além de uma forte carga erótica, algo que faz parte da própria tradição dos filmes de vampiro.
É importante lembrar que, apesar de ser um filme iraniano, Garota Sombria Caminha pela Noite é uma coprodução americana. Faço questão de destacar isso porque é uma informação particularmente relevante diante do contexto do atual regime repressivo iraniano e porque acredito que isso ajuda a compreender a própria estética do filme.
Garota Sombria Caminha pela Noite só pôde nascer porque foi realizado dentro do espaço criativamente seguro da diáspora. O filme parece, portanto, refletir uma condição típica do exílio, não apenas geográfico, mas também cultural.
Ana Lily Amirpour constrói um Irã imaginário a partir dos Estados Unidos. O filme fala em persa, mas incorpora referências do cinema e da música ocidental; utiliza o chador, mas o transforma em um manto de vampira; parte de uma cultura específica, mas recusa as fronteiras estéticas que normalmente usamos para defini-la.
Talvez seja justamente essa condição de estar entre lugares que faça a mistura de estilos funcionar tão bem. O filme parece nascer de um espaço cultural que não pertence inteiramente a nenhum território. Ele é iraniano e americano, oriental e ocidental, ao mesmo tempo em que transita entre o terror e o romance, o cinema pop e o cinema de arte. Em vez de escolher um desses lugares ou tradições, o filme existe justamente nessa zona intermediária, onde todas essas referências podem se misturar e se transformar.
No fim, acho que foi isso que realmente me desorientou. Eu estava procurando uma categoria na qual pudesse colocar o filme, enquanto ele parecia existir justamente no espaço entre elas.