Son of Arrakis – Volume II é o segundo álbum da banda canadense Son of Arrakis, e dá continuidade direta ao Volume I, que já comentamos anteriormente.

A proposta sonora permanece fiel às bases do doom, do stoner rock, da psicodelia e, sobretudo, ao imaginário denso e filosófico de Frank Herbert em Duna.

Logo na abertura, “Scattering” surge como uma faixa mais acelerada e enérgica — um rock and roll pesado, de riffs ásperos e vocais mais melódicos. A canção funciona como um verdadeiro cartão de visitas do disco, assim como ocorreu com a faixa inicial do primeiro volume.

No universo de Duna, o Espalhamento (Scattering) é o evento que sucede o reinado tirânico de Leto II, o Imperador-Deus que governa por 3.500 anos. Após sua morte, a humanidade se dispersa pelo cosmos — um êxodo forçado, mas planejado por Leto como parte de sua visão messiânica, o Caminho Dourado.

A música traduz esse conceito: o preço colossal da sobrevivência da espécie pago com liberdade e sofrimento. O sacrifício de Leto II, por mais monstruoso que pareça, é também um ato de amor pela humanidade.

A segunda faixa, “High Handed Enemy” (Inimigo Arrogante), traz um clima melancólico e quase bluesy. A canção parece se concentrar na figura de Lady Jessica Atreides, que enfrenta um conflito interno profundo ao descobrir que, para a Irmandade Bene Gesserit, ela não passava de um instrumento genético — destinada a gerar uma filha, e não o filho (Paul) que teve por amor.

Seu ressentimento se volta contra a reverenda Mohiam e contra a própria Irmandade. A ordem “descanse sua cabeça e sofra” soa como uma resignação amarga diante de um destino traçado por forças maiores. A faixa retrata a luta contra o trauma, o medo e a doutrinação — um processo de dor que culmina em uma transformação espiritual.

Em seguida, “Beyond the Screen of Illusion” (Além da Tela da Ilusão) fala sobre o despertar da consciência individual diante do controle sistêmico, a descoberta de uma verdadeira identidade por trás das crenças impostas. A música pode se referir tanto a Paul Atreides quanto ao próprio povo Fremen, em seu processo de autoconhecimento e transcendência — uma busca para enxergar além das aparências, além das ilusões do poder e do destino.

Após um breve interlúdio instrumental, o álbum mergulha em “Retaliation”, uma faixa que canaliza o motor emocional de Duna: a vingança. Aqui, o foco está na psique devastada de Paul Atreides após a traição que destrói sua casa.

A sequência segue com “Blood for Blood”, uma das faixas mais intensas do disco. Ela descreve o ciclo interminável de guerra e poder — o conflito entre as Casas Atreides e Harkonnen, e as intrigas políticas do império. A canção ecoa uma das mensagens centrais de Frank Herbert: a busca pelo poder é um ciclo autodestrutivo, uma repetição constante de violência sob novas bandeiras. “Sangue por sangue” torna-se, assim, um hino sombrio à inutilidade da vingança e à corrosão moral da guerra.

Após outro interlúdio, chegamos a “Burn Into Blaze”, que parece focar em Alia Atreides, a irmã de Paul. Nascida com a consciência de todas as suas ancestrais, Alia é considerada uma “Abominação” no universo de Duna. A música é um retrato trágico de uma personagem consumida pelo conhecimento antes mesmo de nascer — um ser que jamais pôde ser realmente livre. É uma metáfora poderosa sobre os perigos do poder absoluto e da herança espiritual descontrolada.

O álbum se encerra com “Caladan”, uma faixa instrumental.

Caladan é o planeta natal da Casa Atreides — um mundo úmido, coberto por oceanos e chuvas constantes, em contraste direto com o deserto árido de Arrakis. A música reflete essa diferença: soa mais suave, melódica e contemplativa, como uma lembrança nostálgica de um lar perdido.

Após a partida dos Atreides, Caladan é entregue ao Conde Fenring, fiel ao Imperador, que assume o governo temporário do planeta. Essa faixa final sintetiza bem a estética que Frank Herbert concebeu — a oposição entre natureza e deserto, entre memória e destino.

Embora Volume II seja mais derivado que o primeiro, mantém a mesma coerência estética e narrativa. Para fãs de Duna e do heavy metal atmosférico e conceitual, o álbum é uma continuação digna — uma viagem sonora pelo deserto, pela memória e pelo poder.

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter

Recomendado

Piece of Mind
Volume 01

Podcast Recente

Rolar para cima