Em 1983, Herbie Hancock lançou Future Shock, seu vigésimo nono álbum de estúdio. Àquela altura, ele já havia provado inúmeras vezes que enxergava o jazz como uma linguagem viva, capaz de absorver qualquer transformação estética que surgisse ao seu redor, inclusive as modas.
Depois de atravessar o hard bop, revolucionar o jazz fusion ao lado de Miles Davis e experimentar funk, soul e música eletrônica durante toda a década de 1970, Hancock percebeu que a próxima grande revolução não estava acontecendo nos clubes de jazz, mas nas ruas de Nova York.
Poucos meses antes, Planet Rock, de Afrika Bambaataa & The Soulsonic Force, havia consolidado uma nova estética musical: o electro-funk.
Esse estilo surgia da combinação entre o groove sincopado do funk, as baterias eletrônicas, especialmente a lendária Roland TR-808, sintetizadores analógicos e a influência futurista dos alemãoes do Kraftwerk e dos japoneses do Yellow Magic Orchestra.
Era uma música urbana, tecnológica e profundamente ligada ao nascimento da cultura hip-hop.
Como sempre fez ao longo de sua carreira, Hancock preferiu participar dessa transformação em vez de observá-la de longe.
Future Shock representa justamente essa decisão.
O disco tornou-se um dos pilares do electro-jazz e, ao mesmo tempo, uma das obras mais importantes para a consolidação do hip-hop instrumental.
Muito disso se deve a “Rockit”, faixa que apresentou ao grande público o scratching como elemento central da composição musical.
Evidentemente, a técnica já existia havia anos no circuito de DJs do Bronx e vinha sendo utilizada desde meados da década de 1970. O pioneirismo de Hancock não está em inventar o scratching, mas em deslocá-lo do universo das batalhas de DJs para o centro de uma respeitável composição jazzistica.
Esse papel ficou nas mãos de GrandMixer DXT (Derek Showard), um dos grandes pioneiros do turntablism, cuja performance em “Rockit” permanece impressionante mais de quarenta anos depois.
O grande mérito, pra mim, está no diálogo (ou na colisão) entre duas formas radicalmente diferentes de fazer música.
De um lado estão as máquinas.
As caixas de ritmo entregam batidas retas, repetitivas, rígidas e matemáticas. Os sintetizadores produzem timbres metálicos, frios e artificiais, construindo uma atmosfera evocativa de um futuro robótico, urbano e eletrônico.
Do outro lado está Herbie Hancock.
Seu piano elétrico e seus sintetizadores recusam qualquer rigidez mecânica. Seu fraseado continua sendo profundamente jazzístico: fluido, imprevisível, cheio de swing, pequenas variações rítmicas, micro-improvisações e uma sensibilidade harmônica impossível de ser programada em uma máquina.
É justamente desse contraste que nasce a identidade de Future Shock.
Em vez de permitir que a tecnologia apagasse sua personalidade musical, Hancock faz exatamente o contrário: utiliza a precisão mecânica como uma tela em branco sobre a qual sua improvisação desenha pinceladas livres e expressivas. Quanto mais reta e inflexível é a batida, mais orgânico soa seu teclado. Quanto mais robótica é a base eletrônica, mais humano se torna seu fraseado.
Isso aparece com especial clareza em “Autodrive”, talvez a faixa em que essa tensão entre homem e máquina seja mais evidente. A programação eletrônica estabelece um pulso, enquanto Hancock parece constantemente escapar dele, improvisando ao redor da estrutura sem jamais abandoná-la. O resultado é uma música que soa simultaneamente precisa e espontânea.
Essa mistura também produz uma atmosfera fortemente afrofuturista. O futuro imaginado a partir da dimensão corporal e rítmica da comunidade negra.
Outro aspecto que sempre me chama atenção em Future Shock é sua textura sonora e a riqueza tátil de timbres. É um disco que convida tanto à audição quanto à observação de suas superfícies sonoras.
O elenco de músicos ajuda a explicar essa riqueza. Além de Hancock nos pianos, sintetizadores, Clavinet e vocoder, o álbum reúne Bill Laswell no baixo elétrico, Michael Beinhorn na programação eletrônica, Sly Dunbar na bateria, Daniel Ponce na percussão afro-cubana, Pete Cosey na guitarra e GrandMixer DXT nos toca-discos. Nos vocais aparecem Dwight Jackson Jr., Bernard Fowler, Lamar Wright, Nicky Skopelitis e Roger Trilling.
Embora tenha apenas seis faixas e pouco mais de trinta e cinco minutos de duração, Future Shock mantém um nível impressionante de consistência. Além de “Rockit”, destacam-se “Future Shock”, “TFS”, “Earth Beat”, “Autodrive” e “Rough”, todas explorando diferentes possibilidades dessa fusão entre jazz, funk e eletrônica.
No fim das contas, Future Shock talvez seja menos um disco sobre tecnologia do que sobre adaptação.
Herbie Hancock percebeu que a energia revolucionária que um dia pertenceu ao jazz havia migrado para outra linguagem, outra geração e outro espaço urbano. Em vez de defender uma tradição cristalizada, aproximou-se dessa nova cultura e dialogou com ela. O resultado não foi um abandono do jazz, mas sua reinvenção.