Lady Vengeance é o último filme da Trilogia da Vingança de Park Chan-wook.
Aqui acompanhamos a história de Lee Geum-ja, de 19 anos, condenada e presa pelo sequestro e assassinato brutal de um menino de seis anos. Na verdade, ela é inocente e assumiu a culpa para proteger sua filha pequena, sob a chantagem do verdadeiro assassino: o dissimulado Sr. Baek (Choi Min-sik), seu antigo professor e amante.
No último filme da trilogia, acompanhamos a jovem Lee Geum-ja, que engravida do namorado ainda na escola. Sem apoio, ela procura ajuda de um conhecido mais velho, o Sr. Baek, um professor de inglês aparentemente gentil. No entanto, Baek se revela um assassino em série de crianças. Ele sequestra e mata brutalmente o garoto Won-mo, de apenas seis anos.
Para escapar da polícia, Baek sequestra a filha recém-nascida de Geum-ja, Jenny, e ameaça matá-la caso a jovem não confesse o crime. Sem saída, Geum-ja grava um vídeo confessando o assassinato e é condenada a 13 anos de prisão. A mídia a transforma em um monstro nacional.
Atrás das grades, Geum-ja adota uma estratégia de sobrevivência milimetricamente calculada, baseada no altruísmo. Ela se torna a detenta mais dócil e prestativa do local, conquistando o apelido de “a gentil senhorita Geum-ja”.
Por trás de cada ato de bondade, porém, há um propósito: conquistar aliadas fiéis para seu plano de vingança. Durante os anos de prisão, ela salva detentas de situações extremas. Geum-ja chega a doar um rim para uma presa idosa e envenena lentamente uma detenta sádica conhecida como “A Bruxa”, que abusava sexualmente das outras mulheres. Com isso, conquista a devoção eterna de um exército de ex-detentas.
Ao sair da prisão, em 2004, Geum-ja adota uma marcante maquiagem vermelha ao redor dos olhos, simbolizando sua nova fase, e começa a cobrar os favores que semeou na cadeia.
Uma ex-detenta consegue para ela um emprego em uma confeitaria artesanal. Outra projeta e fabrica uma arma de fogo personalizada e ornamentada. Uma terceira, casada com um mafioso, ajuda a rastrear o paradeiro atual do Sr. Baek.
Geum-ja também viaja para a Austrália para reencontrar sua filha, Jenny, que foi adotada por um casal estrangeiro. Agora adolescente, ela não fala coreano, mas decide voltar para a Coreia do Sul com a mãe biológica, mesmo sem compreender sua obsessão sombria.
Geum-ja finalmente captura o Sr. Baek com a ajuda de um de seus cúmplices. Ela o amarra em uma escola abandonada no meio da floresta. Enquanto o interroga, descobre um detalhe perturbador que a polícia jamais soube: o Sr. Baek continuou sequestrando e matando crianças ao longo de todos aqueles 13 anos, guardando os pertences das vítimas — canetas, celulares e fitas de cabelo — como troféus em um chaveiro.
Percebendo que a dor da perda não pertence apenas a ela, Geum-ja toma uma decisão incomum. Ela localiza os pais de todas as crianças assassinadas por Baek, reúne essas famílias na escola abandonada, exibe os pertences dos filhos mortos e lhes oferece uma escolha: entregar Baek à polícia ou fazer justiça com as próprias mãos ali mesmo.
As famílias, após um debate angustiante e repleto de choro, decidem pela morte do assassino. Vestindo capas de chuva plásticas e armadas com facas de cozinha, machadinhas e outras ferramentas, entram na sala uma a uma para torturar e executar o Sr. Baek. Geum-ja assiste a tudo e dá o tiro de misericórdia.
Após o linchamento, as famílias limpam o sangue do local, enterram o corpo e se reúnem na confeitaria de Geum-ja. Ali, dividem um bolo de aniversário que simboliza a infância que seus filhos nunca tiveram. O clima é de um vazio absoluto; a vingança não trouxe a paz nem os filhos de volta.
O filme é conhecido por ser o mais estiloso e visualmente deslumbrante da trilogia, algo que me surpreendeu, pois Oldboy, o segundo filme, já era, para mim, extremamente estiloso e visualmente deslumbrante.
Pedro Butcher, da Folha, afirma acertadamente que os filmes de Park Chan-wook são orientados ao excesso, e aqui não é diferente.
Os espectadores são submetidos a uma imensa quantidade de estímulos sensoriais.
É comum em seu cinema encontrar sexo, violência explícita, tortura, comida, restaurantes sujos, vielas perigosas, vômitos, gritaria, sons incômodos, planos-detalhe invasivos e, de alguma forma incrivelmente mágica — quase milagrosa —, tudo isso se torna elegante (e até bonito). Park Chan-wook é um artista e um esteta que consegue esculpir na tela aquilo que é repulsivo ou simplesmente animal.
Os elementos da exacerbação do sujo e do selvagem constroem, sobre a paisagem real (e pouco desejável) da Ásia, um cenário fantasioso e paradoxalmente atraente.
Aqui, entretanto, acentua-se um caráter mais onírico, quase psicodélico, afastando-se da crueza dos dois filmes anteriores.
Enquanto Oldboy e Sympathy for Mr. Vengeance são estilizados por meio de uma energia urbana, hiperbólica e visceral, Lady Vengeance troca o asfalto sujo por uma estética de conto de fadas sombrio.
O filme abandona o compromisso com o realismo para ilustrar o estado mental fragmentado da protagonista. O exemplo mais radical disso é a bizarra cena do sonho em que o Sr. Baek aparece com o corpo de um cachorro, sendo executado por ela.
O filme também me parece mais verbal em sua tese sobre a vingança. Acho interessante a maneira como ele confronta e agride a perspectiva cristã do perdão e da misericórdia com a projeção catártica da vingança e da punição. No entanto, é lúcido o suficiente para explicitar que a mera substituição do perdão pela vingança não redime nem conforta.
Ao criar aquele “tribunal democrático” na escola, Geum-ja oferece às famílias a catarse máxima da punição física. No entanto, o que vemos após a execução do Sr. Baek não é alívio, celebração ou paz. É um silêncio sepulcral e constrangedor.
Quando dividem o bolo na confeitaria, o clima é de um luto estático. A morte de Baek não ressuscitou nenhuma criança. O filme explicita que a vingança é um beco sem saída existencial: ela pune o culpado, mas deixa a vítima exatamente no mesmo deserto emocional.
A cena final amarra essa discussão sobre a impossibilidade da redenção substitutiva.
Nietzsche costumava dizer que a compaixão é um multiplicador de misérias. Podemos dizer, também, que a vingança e o ressentimento são igualmente multiplicadores de miséria. Nenhuma daquelas pessoas saiu transformada ou redimida.
No cristianismo, o justiçamento é, em última instância, divino. No budismo, o ódio multiplica o carma. A civilização, por outro lado, com todo o seu esteio jurídico, seus direitos e deveres e a ideia do julgamento, soa insuficiente para oferecer a um sujeito perverso a punição merecida. De certa forma, até a morte parece insuficiente. Queremos para ele o inferno eterno. Não estou advogando nenhuma posição específica aqui — tenho as minhas e, confesso, elas são voláteis.
Park Chan-wook não nos dá uma resposta correta porque ela simplesmente não existe. Ele nos deixa ali, na neve, com o rosto afundado no bolo branco, divididos entre o alívio primitivo de ver o monstro destruído e o horror existencial de perceber que o mundo continua exatamente tão sombrio e vazio quanto antes.
“A mim pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor.” (Romanos 12:19)