A história de Jó é um dos textos mais conhecidos e profundos da Bíblia, encontrado no Antigo Testamento, no Livro de Jó. Essa narrativa é considerada uma obra-prima da literatura sapiencial e aborda temas como o sofrimento humano, a justiça divina e a fé inabalável. Jó era um homem rico, íntegro e temente a Deus, que vivia na terra de Uz. Ele era abençoado com uma grande família, muitas posses e uma vida próspera. A Bíblia o descreve como “homem íntegro e reto, que temia a Deus e se desviava do mal” (Jó 1:1).
A história começa no céu, onde Deus elogia a fidelidade de Jó. Satanás, porém, questiona a sinceridade dessa fidelidade, argumentando que Jó só serve a Deus porque é abençoado. Ele sugere que, se Jó perdesse tudo, amaldiçoaria a Deus. Deus permite que Satanás teste Jó, mas com a condição de não tirar sua vida. Jó passa por uma série de tragédias devastadoras: perde seus rebanhos e servos, que são roubados ou destruídos; seus filhos morrem quando uma casa desaba sobre eles; e ele é afligido com feridas dolorosas em todo o corpo. Apesar de tudo, Jó não amaldiçoa a Deus. Ele lamenta seu sofrimento, mas mantém sua fé, dizendo: “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá. O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21).
Três amigos de Jó — Elifaz, Bildade e Zofar — vêm consolá-lo. Eles defendem a ideia de que o sofrimento é uma consequência do pecado e insistem que Jó deve ter cometido algum erro grave para merecer tal castigo. Jó, porém, mantém sua inocência e questiona por que os justos sofrem. Um jovem chamado Eliú também fala, sugerindo que o sofrimento pode ser uma forma de disciplina divina para corrigir e purificar o ser humano.
No final do livro, Deus responde a Jó diretamente, mas não explica o motivo de seu sofrimento. Em vez disso, Ele questiona Jó sobre a complexidade e a grandiosidade da criação, lembrando-o de que os caminhos de Deus são insondáveis para os seres humanos. Deus enfatiza Sua sabedoria e poder, mostrando que o homem não pode compreender plenamente Seus propósitos. Depois de Jó reconhecer a soberania de Deus e se arrepender de suas dúvidas, Deus o restaura. Jó recebe o dobro de tudo o que tinha antes: riquezas, família e uma vida longa. Ele vive para ver seus filhos e netos, e morre “velho e cheio de dias” (Jó 42:17).
Mircea Eliade estima essa história atribuindo a ela o predicado de uma simplicidade trágica e, quanto mais eu leio sobre, mais fascinado eu fico com a história.
Essa história não é apenas uma história de provação de fé, mas uma assepsia de conceitos que hoje em dia, acredito que mais do que outras épocas, escandalizam aqueles que perderam completamente o senso de distância entre criatura e criador, entre homens e Deus. Que esqueceram, de fato, o que “Deus” significa.
Deus é justo, mas não se resume a justiça, é amor, mas não se resume em bondade – ele é, acima de todas essas coisas, vontade infinita e poder infinito. O próprio poder de criar e destruir, de “dar” e de “retirar”, conforme seu talante. Isso significa que a própria existência está sendo sustentada por sua vontade soberana. Literalmente as coisas acontecem porque “Deus quis”. Ele “extermina o íntegro e o ímpio” e, ainda por cima “se um flagelo mata de repente, ele rirá do desespero dos inocentes” (Jó 9:22). Não é uma imagem agradável para os modernos, até mesmo os religiosos, que se acostumaram a reduzir Deus nas débeis projeções humanas de justiça, bondade e compaixão.
No justo clamor de Jó, a primeira coisa que Deus fez foi lembrá-lo de sua onipotência, sua obra cósmica, da complexidade do Universo e da variedade infinita das manifestações da vida – sendo a dor uma dessas manifestações.
Em vez de responder diretamente o motivo das desgraças de Jó, Deus deliberava sobre as estruturas cósmicas, sobre as leis do céu, sobre as leis da terra e até mesmo sobre os leões e camurças.
Jó emudece.
Deus continua, falando sobre Behemot e Leviatã e sobre o milagre – enquanto Jó permanecia mudo.
A mensagem para ele ficou clara: um Deus que faz tudo isso, tudo pode, inclusive encher a vida dos justos de desgraças – e os justos não têm o menor direito de reivindicar nada se essa é a Sua vontade. “Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te meus olhos: por isso, retrato-me e faço penitência no pó e na cinza” (Jó 42:1-6).
Jó ainda sofrendo, se culpa e se coloca em penitência. Foi nesse momento que Deus lhe restitui e lhe torna em dobro tudo quanto possuía.
No entanto, não tome essa última coisa como aquilo que Deus esteja obrigado a fazer. Se Deus decidisse não lhe retribuir, a ideia de soberania e impenetrabilidade de Seus desígnios ainda seriam intocados.