Uma Página de Loucura (Kurutta Ichipēji) é um filme de horror psicológico experimental silencioso japonês de 1926, dirigido por Teinosuke Kinugasa.
Assistir a esse filme coloca o espectador diante de uma série de desafios interessantes.
Primeiro, este filme ficou perdido por 45 anos e foi redescoberto por Kinugasa em seu armazém em 1971. A versão que conhecemos deste filme está incompleta, e os diálogos não estavam originalmente nas cópias, como era de se esperar para um filme mudo japonês. O cinema mudo no Japão era narrado ao vivo pelos benshis, junto com um acompanhamento musical, que acompanhava o filme em turnê pelas cidades por onde passava.
Segundo, o filme foi produzido por um grupo de artistas vanguardistas conhecidos como Shinkankakuha (ou “Escola de Novas Percepções”), que tentava superar o “fenômeno das percepções naturalísticas” através de performances que buscavam “uma sensação direta e intuitiva de subjetividade” – seja lá o que isso signifique.
Para o público ocidental, além dos desafios próprios da fragmentação do filme, sua incompletude e sua proposta experimental, ainda temos que lidar com diferenças culturais típicas do país do Extremo Oriente, que por mais tempo permaneceu fechado e que é considerado distinto até mesmo entre seus vizinhos.
No entanto, o mundo mais conectado hoje nos permite decifrar a história com maior clareza e ter acesso ao próprio argumento do diretor.
A história central do filme se passa em uma instituição para doentes, localizada em uma casa de repouso no campo.
No filme, acompanhamos um zelador que caminha pelos corredores desta instituição, revelando vários pacientes com problemas psicológicos.
Aqui, o filme adota uma perspectiva tanto expositiva quanto simbólica. Passamos pelas celas e vemos os pacientes, ora sorrindo, ora desesperados; ora nos cantos dos quartos, ora apoiados nas grades. As sobreposições e distorções intencionais das imagens, combinadas com o que parece ser uma tempestade acontecendo lá fora, revelam simbolicamente um cenário intenso de perturbação. O filme usa e abusa das montagens, dos cortes secos e das sobreposições – basicamente revelando o conteúdo na forma (por isso mesmo, o fato de não ter diálogos se torna, em parte, irrelevante para esse tipo de filme).
O zelador é esposo de uma das pacientes da casa, que enlouqueceu devido às crueldades que sofria dele quando ele era marinheiro. Sentindo-se culpado, aceitou trabalhar na casa de repouso para cuidar dela. Depois de um certo tempo, o próprio zelador começa a enlouquecer, perdendo gradativamente a capacidade de separar delírio e realidade, colocando o tema da loucura não apenas como uma perturbação individual, mas algo também impulsionado pelo ambiente. As instituições de saúde mental não apenas servem como “depósitos de loucos”, mas também podem, paradoxalmente, ser “enlouquecedoras”.
Enfim, embora seja um filme bastante interessante do ponto de vista temático, tocando em pontos delicados e sensíveis, para mim, acima de tudo, é um filme interessante para quem realmente gosta de cinema, especialmente para quem gosta de estudar cinema.
Aqui vemos como a linguagem cinematográfica conta uma história e utiliza sua própria gramática para isso: cortes, montagem, edição, enquadramento, movimento de câmera, zoom, ângulo de câmera, plano, contraplano, som etc.
Vemos em filmes como esse que as ferramentas narrativas do cinema não podem ser reproduzidas em qualquer outro tipo de arte: seja teatro, ópera ou até mesmo literatura.
Curiosidade: Yasunari Kawabata, que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1968, foi creditado no filme como roteirista e argumentista.