Dragontown, décimo quinto álbum solo de Alice Cooper, lançado em 2001 pela Spitfire Records, sempre ocupou para mim um lugar estranho e especial dentro da discografia dele.

Eu o conheci completamente por acaso, ainda no começo dos anos 2000, numa daquelas compras impulsivas em que você pega um CD sem fazer ideia do que vai encontrar. Era a fase em que eu passava tardes inteiras vendo filmes absurdos, cheios de neon e crime, magia misturada com arranha-céus, realidades paralelas e persongens improváveis.

Esse mosaico caótico formava minha imaginação estética e moldava minha sensibilidade para qualquer obra que cruzasse meu caminho.

Eu tinha ouvido apenas um álbum do Alice até então, o The Eyes of Alice Cooper, e estava longe de imaginar que cairia num universo tão diferente, tão sombrio e tão fascinante.

Não sabia absolutamente nada sobre o conteúdo lírico quando dei o play e encontrei The Triggerman, Deeper e Dragontown. Cada uma das três soava muito diferente da outra e, ao mesmo tempo, estranhamente coesa — algo que me surpreendeu de imediato.

Aos poucos, percebi que havia ali uma mistura estética extravagante, como se Blade Runner e Os Aventureiros do Bairro Proibido tivessem sido absorvidos, triturados e reimaginados em forma de Heavy Metal. Era uma síntese improvável de distopia urbana futurista, caos místico asiático e um senso de teatralidade que só Alice Cooper saberia conduzir. Essa atmosfera Industrial-Onírico-Oriental dava ao disco um caráter quase cinematográfico, como se a cidade de Dragontown existisse fisicamente e a trilha sonora estivesse simplesmente vazando para fora dela.

As guitarras ainda guardavam um certo groove de Hard Rock que eu lembrava do The Eyes of Alice Cooper, mas agora vinham misturadas a texturas eletrônicas. Foi nesse impacto inicial que o álbum começou a ocupar seu lugar definitivo na minha memória musical.

O curioso é que Dragontown acabou se tornando um dos discos mais negligenciados de sua carreira, ao lado de DaDa e das experiências proto-psicodélicas de Pretties for You e Easy Action. Não teve single, não teve videoclipe, e a turnê foi curta e pouco documentada. Com exceção de algumas faixas soltas, o álbum praticamente desapareceu do repertório ao vivo. O que é irônico, porque dentro daquela fase mais pesada, industrial e eletrificada, ele forma junto com Brutal Planet um bloco conceitual surpreendentemente sólido.

Foi só mais tarde que descobri o conceito por trás do disco. A tal cidade de Dragontown era imaginada como uma distopia pós-cristã, inspirada tanto nas Chinatowns de Los Angeles quanto no Provérbio 5 da Bíblia. E foi aí que tudo se encaixou. Percebi que Alice Cooper não era apenas criativo e eclético — ele era, provavelmente, o cristão mais cool que eu conhecia.

O conceito inteiro gira em torno da ideia de uma sociedade entregue ao hedonismo, ao crime e à autossuficiência destrutiva. Cooper já foi chamado de “C. S. Lewis do Shock Rock”, e o apelido faz sentido: ele usa justamente a estética mais brutal, mecanizada e distópica possível para falar da ausência de transcendência. Cristo não aparece, não é mencionado, mas a falta dele se torna o tema central — como um silêncio pesado que atravessa cada faixa.

Por motivos muito pessoais, continuo achando Dragontown superior a Brutal Planet. Não que um precise competir com o outro, mas Dragontown é mais variado, mais inventivo e mais imprevisível. Nunca soa repetitivo. A faixa-título é até hoje uma das minhas preferidas de toda a carreira do Alice — sombria, criativa e ritmicamente hipnótica. The Triggerman, Sex, Death and Money, Fantasy Man e I Just Wanna Be God formam o núcleo duro do disco, onde a fusão entre industrial, teatro, distopia urbana e metáforas cristãs se realiza de forma plena.

No fim das contas, Dragontown permanece para mim como um artefato estranho, ignorado e, talvez justamente por isso, precioso. Um disco que parecia esquecido até pelo próprio artista, mas que em sua marginalidade revela um dos períodos mais ousados, coerentes e esteticamente ambiciosos da carreira de Alice Cooper — e que, lá atrás, sem aviso nenhum, acabou me levando para um dos mundos sonoros mais marcantes que já encontrei.

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