Dodes’ka-den é um drama de 1970 dirigido por Akira Kurosawa, baseado no romance Uma Cidade sem Estações, do escritor japonês Shugoro Yamamoto. Foi o primeiro filme colorido de Kurosawa e também o primeiro realizado sem seu ator mais recorrente, Toshiro Mifune, com quem o diretor rompeu a parceria após os desentendimentos nas filmagens de O Barba-Ruiva (1965).
Foi um paradoxo marcante: o primeiro mergulho de Kurosawa nas cores aconteceu no instante mais cinzento de sua vida artística.
Apesar de sua importância histórica, Dodes’ka-den foi um fracasso retumbante. Com um orçamento modesto de cerca de ¥100 milhões, o filme não conseguiu sequer se pagar. Kurosawa, que financiou o projeto com recursos próprios, chegou a hipotecar a própria casa. O resultado foi devastador: dívidas, decepção e um sentimento de fracasso que o deixaram à beira do colapso. No ano seguinte, em 22 de dezembro de 1971, o cineasta tentou tirar a própria vida, cortando os pulsos e o pescoço com uma navalha. Sobreviveu, mas o episódio revelou a dimensão da crise que vivia — pessoal, artística e espiritual.
Curiosamente, o drama real do diretor se reflete de forma quase simbiótica no próprio filme. Dodes’ka-den é uma antologia de histórias entrelaçadas sobre moradores de uma favela nos arredores de Tóquio. Ali, entre lixo e entulho, a miséria convive com o sonho, e a imaginação surge como último abrigo de dignidade.
O primeiro personagem que conhecemos é Roku-chan, um menino com deficiência mental que acredita ser motorista de bonde. Ele conduz seu veículo imaginário pelos becos da favela, repetindo o som das rodas — “dodes’ka-den, dodes’ka-den…” — em um mantra que dá ritmo e sentido à sua existência. Esse refrão, ao mesmo tempo infantil e trágico, sintetiza o espírito do filme: o movimento incessante de quem não sai do lugar.

Ao redor de Roku-chan, desfilam personagens igualmente marcados pela pobreza e pela desesperança. Há Ryotaro, o homem bom e resignado que sustenta os inúmeros filhos da esposa infiel; Masuda e Kawaguchi, dois bêbados que trocam de esposas por uma noite como se nada importasse; Hei, um homem melancólico visitado pela ex-esposa Ochō, cujos diálogos parecem vir de um sonho; Shima, dominado por uma mulher agressiva; Katsuko, uma jovem violentada pelo tio alcoólatra; e um mendigo com seu filho, que vivem num carro abandonado — o pai sonhando com uma casa magnífica enquanto o menino busca comida entre os restos da cidade.
Essas pequenas tragédias são observadas pelas chamadas “mulheres da torneira”, que comentam os acontecimentos da favela como um coro grego, ironizando e refletindo sobre a vida alheia. É por meio desses fragmentos que Kurosawa constrói um retrato comovente da humanidade reduzida à sua essência: a capacidade de imaginar, mesmo quando tudo mais foi perdido.
Tematicamente, o filme ecoa Um Domingo Maravilhoso (1947), outra obra de Kurosawa em que o sonho surge como forma de resistência à dureza da realidade. Mas, se naquele a fantasia era um gesto consciente de esperança, aqui ela se torna uma fuga desesperada — produto da loucura, da miséria e da incapacidade de suportar o real. O que antes era ternura agora é delírio; o que antes era fé agora é desespero.
Visualmente, Dodes’ka-den é um espetáculo paradoxal. Kurosawa pintou parte dos cenários para acentuar as cores, criando uma paleta vibrante e quase irreal — uma técnica semelhante à usada por Michelangelo Antonioni em O Deserto Vermelho (1964). Essa escolha torna a pobreza da favela algo estranhamente belo: o lixo brilha, o pó ganha vida, o absurdo se tinge de cores. Há algo de Pasolini na crueza poética das imagens, e um quê de Fellini na forma como o grotesco e o sentimental se entrelaçam, dando ao filme uma dimensão quase onírica.
Ainda que alguns episódios pareçam ingênuos ou excessivamente melodramáticos, o conjunto é de uma força rara. Dodes’ka-den pode ser irregular, mas é profundamente humano — um filme sobre o poder do sonho, mesmo quando ele não basta.
Ao fim, o que resta é a sensação de que Kurosawa, através de seus personagens, estava tentando salvar a si mesmo. Dodes’ka-den é o grito de um artista à beira do abismo, que ainda acreditava que a imaginação poderia iluminar as ruínas — nem que fosse por um instante.