The Witch Who Came from the Sea (conhecido no Brasil como A Bruxa que Veio do Mar) é um filme americano de terror psicológico lançado em 1976.
Dirigido e produzido por Matt Cimber e roteirizado por Robert Thom, o longa se tornou um clássico cult, frequentemente lembrado por sua atmosfera perturbadora e por ter sido proibido em 1984 pelo governo britânico por ser considerado obsceno e violento demais.
No entanto, críticos modernos, apontam que, diferentemente de outros filmes de terror apelativos, The Witch Who Came from the Sea se concentra muito mais no estudo psicológico do trauma e da dissociação da protagonista do que no gore.
Apesar do título sugestivo, não há uma bruxa real ou elementos sobrenaturais na história. O título do filme, na verdade, faz referência visual e temática à obra de arte O Nascimento de Vênus, que aparece durante a projeção.
A trama acompanha Molly (interpretada por Millie Perkins), uma garçonete que trabalha em um bar à beira-mar e sofre com graves traumas emocionais causados pelos abusos sexuais cometidos por seu pai durante a infância.
Consumida por surtos psicóticos, fantasias violentas e alcoolismo, Molly entra em uma espiral de loucura e inicia uma onda de assassinatos brutais, seduzindo e castrando homens que cruzam seu caminho.
É interessante notar como o filme passou por uma grande reavaliação positiva ao longo dos anos. Enquanto muitos críticos de sua época o descartaram como apenas mais um filme apelativo de baixo orçamento, a crítica contemporânea passou a enxergá-lo como uma obra incompreendida, trágica e perturbadora.
Eu pessoalmente tendo a concordar tanto com as críticas positivas quanto com as negativas.
O filme é, de fato, muito mais complexo do que aparenta, e boa parte do desconforto que provoca está justamente nas sugestões e nas ideias que permanecem nas entrelinhas.
No entanto, não se pode negar que existe também uma exploração apelativa do erotismo.
Os produtores sabiam que o sexo era um dos elementos que garantia a bilheteria e ajudava a pagar as contas das produções independentes.
The Witch Who Came from the Sea insere nudez, sedução e fetiches de forma deliberadamente provocativa, mesmo que a intenção subjacente do diretor e do roteirista fosse discutir o trauma.
O contraste tonal do filme é bastante evidente. Em um momento, estamos testemunhando o colapso mental doloroso de uma mulher abusada; no momento seguinte, a câmera adota um olhar voyeurista e sensualizado. Essa quebra de tom cria uma atmosfera bizarra, na qual o espectador não sabe se deve sentir empatia pela tragédia de Molly ou culpa por estar consumindo aquilo como entretenimento erótico.
O mérito do filme, talvez, esteja justamente em conseguir fazer com que suas ideias e sugestões sobrevivam a essa roupagem apoplética.
Sendo generoso com as intenções do diretor e do roteirista, arrisco dizer que o erotismo e a violência são usados não apenas para chocar, mas também para ilustrar como a mente de Molly fundiu o sexo ao perigo e à vingança. No entanto, no fundo, eu sei que também existe ali uma clara intenção comercial.
De qualquer forma, além de suas intenções, podemos elogiar o visual marcante do filme. Ele parece uma espécie de sonho febril e psicodélico, misturando o cenário decadente de uma cidade litorânea às ilusões de Molly. A fotografia contou com a colaboração de Dean Cundey como diretor associado, antes de ele se tornar mundialmente conhecido por fotografar clássicos de John Carpenter, como Halloween (1978) e The Thing (1982).
A atmosfera de balneário decadente, os figurinos da época e a luz natural do sol da Califórnia, combinados aos interiores escuros e enfumaçados dos bares, criam uma espécie de realismo sujo. Paradoxalmente, esse realismo se torna plasticamente belo quando se funde às cenas de fantasia à beira-mar.