Uma das coisas de que mais gosto no cinema de horror é a maneira como ele, talvez melhor do que qualquer outro gênero, consegue traduzir artisticamente sentimentos que, fora dele, seriam difíceis de nomear.
Acredito que tudo aquilo que é verdadeiramente significativo em nossa existência passa, de alguma maneira, pelo sentimento do medo. O medo da solidão, da perda, do esquecimento, da morte ou mesmo do inferno são, em última instância, experiências que nos colocam diante daquilo que realmente importa.
O Segredo do Lago Mungo (Lake Mungo), filme de Joel Anderson lançado em 2008, é um exemplo particularmente interessante disso.
Poucos filmes de horror conseguem articular com tanta delicadeza e, ao mesmo tempo, de forma tão sombria, o luto, o isolamento e a dolorosa impossibilidade de conhecermos plenamente o outro, mesmo quando esse outro é alguém que amamos e está próximo.
A história começa com o afogamento acidental de Alice Palmer, uma adolescente de dezesseis anos, em uma represa no interior da Austrália. Dias depois de seu enterro, sua mãe, June, seu pai, Russell, e seu irmão, Matthew, começam a presenciar acontecimentos estranhos dentro e ao redor da casa. Fotografias e vídeos caseiros, registrados pela própria família, parecem revelar, ao fundo das imagens, uma figura que se assemelha a Alice.
Em busca de uma explicação, os Palmer recorrem a um parapsicólogo. Mas, à medida que a investigação avança, o interesse pelos fenômenos sobrenaturais gradualmente dá lugar a uma investigação da própria vida de Alice. A família começa a descobrir que a filha que acreditava conhecer guardava uma série de segredos.
Alice mantinha relações com vizinhos adultos, frequentava festas sem o conhecimento dos pais e escondia fitas de vídeo que registravam experiências que permaneceram completamente desconhecidas pela família até depois de sua morte.
É nesse ponto que Lake Mungo estabelece uma relação bastante interessante com Twin Peaks. Ambas as obras partem da morte de uma jovem aparentemente perfeita, cuja ausência desencadeia uma investigação que, pouco a pouco, dissolve a fachada de normalidade construída ao seu redor. À medida que a investigação avança, aquilo que parecia ser uma vida familiar e comunitária perfeitamente compreensível revela uma dimensão subterrânea e secreta.
Laura Palmer e Alice Palmer compartilham, inclusive, mais do que o sobrenome. Ambas mantinham diários, fitas e segredos; ambas possuíam uma vida que existia paralelamente àquela conhecida por suas famílias; ambas estavam envolvidas em encontros clandestinos e experiências que os adultos ao seu redor eram incapazes de imaginar.
O medo, em Lake Mungo, não é apenas o medo do sobrenatural. É, também, o medo daquilo que a verdade pode revelar.
O horror nasce, ou pelo menos se intensifica, no instante em que percebemos que aquilo que procurávamos talvez estivesse diante de nós desde o começo.
Existe uma refinada metáfora na maneira como o filme estimula os espectadores a examinar fotografias granuladas, vídeos de baixa resolução e imagens aparentemente banais, percorrendo cada canto do quadro em busca de alguma coisa que possa ter passado despercebida. Existe sempre a sensação de que algo está ali desde o princípio, silencioso e imóvel, esperando apenas o momento em que finalmente será percebido, tal como a própria verdade.
Além disso, há uma das características que mais admiro em Lake Mungo: o filme nunca sucumbe à tentação do espetáculo.
A figura espectral de Alice não é monstruosa, nem deliberadamente ameaçadora. Ela surge discretamente nos cantos dos cômodos, nos quintais, nos reflexos e nas margens da imagem, quase como alguém que não deseja interromper o mundo dos vivos.
E é justamente essa presença que torna o fantasma de Alice particularmente perturbador.
Há algo de profundamente melancólico na maneira como ela aparece, algo que parece coerente com a própria personalidade da personagem. Em vida, Alice existia parcialmente à margem daqueles que a cercavam. Depois da morte, seu fantasma parece continuar ocupando esse mesmo lugar. Ela não retorna para reivindicar nada. Não exige vingança. Não procura necessariamente assustar ninguém. Apenas permanece.
O sobrenatural, portanto, deixa de funcionar como uma ameaça externa e passa a ser um comentário sobre o próprio drama dos personagens. O fantasma de Alice não representa simplesmente a possibilidade de que os mortos permaneçam entre nós. A morte é apenas a extensão de uma ausência já experimentada em vida.