Poucas gerações foram tão marcadas pela sensação de esgotamento quanto os millennials.
Cresceram sob a promessa de que a internet democratizaria o conhecimento, aproximaria pessoas e ampliaria as possibilidades de realização pessoal.
Em vez disso, encontraram um mundo mediado por algoritmos, pela economia da atenção e pela necessidade permanente de transformar a própria vida em conteúdo.
O resultado é uma geração que vive conectada, mas emocionalmente exausta; permanentemente estimulada, mas incapaz de encontrar repouso.
É justamente esse estado de espírito que Cracker Island, oitavo álbum do Gorillaz, lançado em 24 de fevereiro de 2023, procura retratar.
Esse disco fala sobre comunidades digitais, cultos, redes sociais e realidades alternativas. No entanto, o verdadeiro assunto aqui não é a tecnologia, mas o modo como ela reorganizou a experiência humana e criou seus personagens.
As personagens criadas por esse mundo habitam bolhas, correm silenciosamente (Silent Running) o mundo através de timelines infinitas, narrativas personalizadas e transformam a realidade em uma sucessão de confirmações das próprias crenças.
Damon Albarn tem uma incrível habilidade de traduzir esse mal-estar em imagens extremamente simples. Talvez a mais precisa seja The Tired Influencer: o influenciador exausto, incapaz de abandonar o espetáculo do qual também depende para existir. É uma figura profundamente millennial. Alguém que acreditou que a internet seria um espaço de liberdade criativa, mas acabou preso à lógica da produtividade permanente e da exposição contínua e vê o mundo através de uma “tela quebrada”.
Musicalmente, Cracker Island não é tão interessante, embora não seja ruim. É um disco agradável. O synth-pop, o R&B e o funk aparecem revestidos por uma produção elegante, limpa e extremamente controlada. No eentanto, as músicas raramente surpreendem. Baterias eletrônicas inspiradas no hip hop, sintetizadores espaciais, linhas discretas de baixo e harmonias vocais sobrepostas compõem um repertório sonoro bastante familiar para quem acompanha o Gorillaz.
Entretanto, essa aparente falta de ousadia talvez seja deliberada (ou eu esteja viajando memso). O disco transmite a sensação de alguém funcionando no piloto automático. Mesmo seus momentos de maior intensidade, como alguns trechos de “Skinny Ape”, parecem explosões breves antes do retorno inevitável à apatia. Não há megalomania nem grandes clímax. Existe apenas uma elegância discreta e uma aceitação dos próprios limites.
É justamente essa contenção que torna Cracker Island um retrato tão convincente do imaginário millennial. O álbum não lamenta o colapso nem propõe qualquer saída para ele.
