A consolidação da internet como principal espaço de circulação da música independente produziu um fenômeno curioso: o surgimento de cenas musicais que existem quase exclusivamente no ambiente digital.

Diferentemente dos movimentos tradicionais, geralmente associados a cidades, gravadoras ou casas de shows, essas comunidades são formadas por artistas dispersos geograficamente, conectados por plataformas como Nico Nico Douga, SoundCloud, Bandcamp e YouTube.

Foi desse ecossistema que nasceram vertentes como o Maidcore, o Dreamcore, diferentes cenas ligadas aos Vocaloids e inúmeras outras manifestações que dificilmente encontrariam espaço na indústria fonográfica tradicional.

O que caracteriza esses movimentos é sua circulação quase exclusiva em nichos específicos e a liberdade para combinar referências muito distintas, como metal, shoegaze, post-rock, eletrônica, lo-fi, música ambiente e cultura otaku.

O mais impressionante, porém, é que essa combinação costuma produzir discos excelentes.

Ugly Witchery, colaboração entre Scythe of Luna e Yakui The Maid lançada em 2017, foi uma das descobertas recentes que mais me surpreenderam.

Ambos são produtores independentes bastante conhecidos dentro dessas cenas. Scythe of Luna construiu sua identidade artística em torno do uso de Vocaloids e de uma sonoridade fortemente influenciada pelo rock pesado. Yakui The Maid, por sua vez, tornou-se uma das principais referências do Maidcore, microgênero caracterizado por atmosferas melancólicas, produção lo-fi, texturas inspiradas no post-rock e guitarras carregadas de distorção.

O resultado da colaboração de ambos é um álbum que, em muitos momentos, se aproxima do grunge e do metal alternativo, mas cuja produção o afasta imediatamente de qualquer tentativa de classificação convencional. As guitarras surgem densas, saturadas e abrasivas, formando camadas de ruído que dialogam tanto com o noise rock quanto com o shoegaze. Os riffs ocupam posição central nas composições, enquanto os elementos eletrônicos aparecem de maneira discreta, funcionando mais como textura do que como protagonistas.

Outro aspecto marcante é o tratamento dos vocais. O disco alterna vozes infantis com rosnados metálicos processados digitalmente.

Apesar do enorme peso das guitarras, existe sempre uma sensação de suspensão etérea atravessando as músicas. A agressividade nunca elimina a atmosfera contemplativa, assim como a melancolia jamais reduz o impacto físico das composições.

O disco encontra um equilíbrio raro entre paredes de distorção, sucessivas camadas de ruído e melodias delicadas e etéreas.

Ótimo disco, como é de costume no gênero.

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