Kyle Edward Ball é um cineasta independente que vem, ao longo dos anos, desenvolvendo de forma bastante singular sua própria gramática do terror.

Sua trajetória começou com um canal no YouTube chamado Bitesized Nightmares (“Pesadelos em Pequenas Proporções”), no qual convidava os espectadores a deixarem comentários descrevendo os pesadelos mais marcantes e abstratos que tiveram na infância.

Ball recriava esses relatos em vídeos curtos, utilizando equipamentos caseiros e recursos de produção bastante modestos.

Ao longo desse processo, que pode inclusive ser analisado sob uma perspectiva psicanalítica, ele percebeu que os medos mais profundos das crianças raramente envolvem monstros com garras ou criaturas fantásticas. Em vez disso, surgem de elementos aparentemente banais: objetos que mudam de lugar, televisões que ligam sozinhas, corredores escuros ou a sensação inquietante de que os pais desapareceram.

Em 2020, Ball decidiu condensar tudo o que havia aprendido nesse experimento em um curta-metragem de 28 minutos chamado Heck, que serviria como protótipo para seu primeiro longa-metragem, Skinamarink: Canção de Ninar, lançado em 2022.

A produção, ainda mais experimental do que seu precursor, tornou-se um grande fenômeno viral no TikTok e em diversos fóruns da internet. Como era de se esperar de uma obra tão radical em suas propostas estéticas, dividiu o público de forma intensa entre aqueles que a consideram uma das experiências mais originais do horror contemporâneo e aqueles que a enxergam como um filme excessivamente lento, confuso e monótono.

A trama se passa em 1995. Dois irmãos pequenos, Kevin, de quatro anos, e Kaylee, de seis, acordam no meio da noite e descobrem que o pai desapareceu misteriosamente. Pouco tempo depois, acontecimentos estranhos começam a ocorrer: todas as portas e janelas da casa simplesmente desaparecem.

Sozinhas e confinadas, as crianças se refugiam na sala, assistindo a desenhos animados antigos na televisão para tentar ignorar a escuridão ao redor. Aos poucos, porém, uma voz sombria começa a sussurrar a partir das sombras.

O filme não segue a estrutura narrativa tradicional do cinema de horror e aposta quase inteiramente em uma experiência sensorial e psicológica. Embora tenha sido gravado digitalmente, o longa foi editado para parecer uma antiga fita VHS, com imagem escura, granulada e degradada, potencializando uma sensação espectral e inquietante.

“Skinamarink” é uma referência a “Skidamarink”, uma famosa canção infantil norte-americana do início do século XX. A palavra não possui tradução nem significado específico. O diretor a escolheu justamente por sua capacidade de evocar uma atmosfera infantil e nostálgica que, dentro do contexto do filme, é transformada em algo perturbador.

A primeira coisa que eu gostaria de evitar ao falar sobre Skinamarink é discutir se gostei dele ou não.

Não senti muito medo ou apreensão durante a exibição, salvo em uma ou outra cena específica. No entanto, minhas sensações pessoais talvez sejam o aspecto menos relevante da discussão. O filme foi interessante o suficiente para despertar minha curiosidade e original o bastante para me surpreender.

Para mim, seu valor está sobretudo na proposta, na atmosfera e na estética.

Essa proposta já está presente no próprio gênero ao qual o filme deliberadamente se vincula. Trata-se de um terror voltado para a apreensão e para o desconforto psicológico. Para alcançar esse efeito, utiliza uma linguagem que lembra a do found footage, embora não seja exatamente um exemplar desse subgênero.

Passamos grande parte do tempo observando cantos de paredes, vãos de portas, tetos, pisos e objetos espalhados pelo chão. Tudo é iluminado apenas pela luz fraca que emana de um cômodo distante, acendendo e apagando intermitentemente, ou pelo brilho vacilante de uma televisão ligada.

Talvez seja justamente esse aspecto que tenha afastado muitos dos detratores do filme, incapazes de se envolver tanto com sua proposta estética quanto com sua execução. Afinal, Skinamarink exige do espectador uma disposição pouco comum para contemplar o vazio, a espera e a sugestão em detrimento de algum acontecimento.

A paisagem sonora é composta por ruídos estáticos, sussurros quase incompreensíveis e pelos sons estranhamente desconcertantes de desenhos animados das décadas de 1920 e 1930.

À primeira vista, esse cenário parece banal. Contudo, de tempos em tempos surgem elementos inexplicáveis: uma cadeira presa ao teto, paredes que aparecem e desaparecem, silhuetas humanas que parecem observar à distância.

Do ponto de vista estético, o filme realiza algo notável ao extrair de objetos banais aspectos impressionistas e expressionistas. Há também um trabalho consistente com conceitos como liminaridade, pareidolia, nostalgia distorcida, vale da estranheza e até mesmo uma sutil sugestão de surrealismo.

A casa onde a história se desenrola é, ao mesmo tempo, familiar e estranha. Em certos momentos ela parece uma residência perfeitamente comum; em outros, assume uma geografia confusa, na qual nem sempre conseguimos distinguir o que é teto e o que é chão.

Essa incapacidade de compreender a organização espacial do ambiente ataca diretamente nosso senso de orientação. O cérebro humano tenta constantemente mapear o espaço ao redor para construir uma sensação de segurança. O ambiente se parece com uma casa comum, mas existe algo de fundamentalmente desalinhado em sua configuração. Esse elemento impede o espectador de se acomodar à cena. O lar, que deveria representar o máximo da familiaridade e da proteção, torna-se desconhecido, hostil e ameaçador.

Outro aspecto que pouco me interessa discutir, ao menos neste momento, são as inúmeras teorias elaboradas para explicar o enredo. Sinceramente, acredito que esse seja o elemento menos importante da experiência.

Vejo Skinamarink seguindo uma orientação semelhante à dos trabalhos mais oníricos de David Lynch, especialmente seus primeiros curtas-metragens ou em seus filmes mais experimentais (como Inland Empire), nos quais a narrativa tradicional é praticamente implodida em favor de uma textura sensorial.

Pouco importa a história ou o arco narrativo. Tudo é construído a partir de sensações e impressões que sublimam até mesmo as noções de linearidade e não linearidade, de causa e efeito.

O que vemos é, muito provavelmente, uma neurose infantil transformada em imagem.

As ações acontecem em um vácuo lógico. O tempo não é cronológico; é viscoso. Tudo parece simultaneamente congelado e eterno.

Os próprios personagens ocupam uma posição secundária na narrativa. Sabemos apenas seus nomes, ouvimos seus diálogos em sussurros ou por meio de vozes distorcidas e percebemos que são crianças submetidas a comandos estranhos e perturbadores, como “suba as escadas”, “venha até o sótão” ou “coloque uma faca no seu olho”. Ainda assim, seus rostos permanecem ocultos durante praticamente toda a projeção.

Essa escolha reforça a proposta central do filme. Skinamarink se recusa a funcionar como um quebra-cabeça a ser decifrado. Não está interessado em oferecer respostas claras ou em ser completamente compreendido. Em vez disso, convida o espectador a habitar sua atmosfera de incerteza e desconforto, como se estivesse preso dentro de um pesadelo persistente do qual é impossível despertar.

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