FOR NO MAN SHALL SEE ME AND LIVE é um álbum de estúdio lançado pela banda americana de powerviolence World Peace.

O powerviolence, para quem não conhece o termo (e eu não conhecia até decidir escrever sobre este disco), é um subgênero do hardcore punk surgido nos Estados Unidos no final dos anos 1980, caracterizado por sua velocidade extrema, agressividade e sonoridade deliberadamente crua.

Uma de suas características mais marcantes é a alternância brusca entre velocidades ultrarrápidas, marcadas por blast beats, e passagens extremamente lentas e pesadas, próximas do sludge. O som é intencionalmente sujo, cru, ruidoso e gravado sem grandes refinamentos. Também é comum o uso de dois vocalistas alternando entre gritos agudos e guturais profundos.

As letras costumam abordar protestos sociais, niilismo, antifascismo, direitos dos animais e críticas ao próprio meio punk.

FOR NO MAN SHALL SEE ME AND LIVE é considerado um exemplo “moderno” do gênero.

Além das características habituais do powerviolence, o disco apresenta flertes com o groove metal e o nu metal, especialmente em faixas como Diaspora e Lesser Miracles, incorporando levadas mais cadenciadas e até dançantes. Acredito que parte desse groove acentuado seja resultado da formação peculiar da banda, composta estritamente por baixo elétrico e bateria, sem guitarras. Essa escolha produz um som incrivelmente visceral.

O título do álbum e a própria estética conceitual do disco fazem alusão direta à passagem bíblica de Êxodo 33:20, na qual Deus diz a Moisés: “Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá”.

Só para contextualizar, na narrativa bíblica, Moisés pede para contemplar a glória divina, mas o Criador responde que sua presença é tão absoluta e avassaladora que a natureza pecaminosa e frágil do homem seria instantaneamente destruída caso a encarasse diretamente.

A abordagem lírica e conceitual do World Peace ao mesmo tempo que é niilista, fria e profundamente voltada para expor aquilo que a banda considera as falhas inerentes da humanidade, se comunica diretamente com esse tema bíblico.

A metáfora bíblica é utilizada aqui para representar uma espécie de “verdade nua e crua” sobre a decadência humana. Olhar diretamente para o que a humanidade realmente se tornou, sua ganância, violência e hipocrisia, seria algo tão terrível e destrutivo que ninguém conseguiria suportar sem “morrer” por dentro.

Há outras referências bíblicas interessantes em faixas como Bastard Sons of Noah e Diaspora, que apresentam a humanidade como uma linhagem maldita, condenada desde tempos ancestrais.

O tom geral do álbum sugere que não há salvação, redentor ou recompensa final esperando pela humanidade.

Outras músicas, como Those Bearers of False Gifts, procuram desmascarar o altruísmo performático, sugerindo que por trás de toda grande promessa de ajuda, progresso ou caridade esconde-se um interesse egoísta, uma mentira ou uma tentativa de controle espiritual e social.

Particularmente, considero esse niilismo catastrofista da banda bastante infantil.

Parece a visão de alguém que acabou de descortinar a realidade e percebeu, com perplexidade neófita, que existem problemas no mundo. É algo típico de jovens do Primeiro Mundo ou de millennials desencantados. O World Peace é de São Francisco, uma das regiões mais ricas e gentrificadas do planeta. A saída mais previsível para esse tipo de “descoberta” é pintar um mundo sombrio, condenado e irreversivelmente decadente.

Hoje, respeito mais a abordagem de Julianna Barwick e Mary Lattimore no maravilhoso Tragic Magic, disco em que procuram transformar uma catástrofe em algo belo.

Não estou dizendo que haja aqui uma revolta fingida. A banda parece canalizar, de forma honesta, uma frustração existencial que, para quem vive em condições de vulnerabilidade material concreta, pode soar como o privilégio de quem tem tempo para romantizar o apocalipse dentro de um estúdio de gravação.

Acho interessante perceber, ainda, que toda essa camada de revolta esconde uma espécie de milenarismo religioso.

Há uma evidente aproximação com temas do Antigo Testamento relacionados à decadência moral, à condenação e ao colapso do mundo.

Isso leva esses jovens, que imagino serem ateus, a assumirem uma postura próxima à dos profetas veterotestamentários, anunciando constantemente que o fim está próximo.

É interessante notar que o modo de pensar desse tipo de juventude é profundamente religioso e escatológico.

Eles exigem, mesmo sem perceber, uma espécie de pureza obtida por meio de uma espécie de ascetismo moral. O artista se coloca numa posição de superioridade ética cínica: ele teria “enxergado a verdade” que a massa alienada é incapaz de perceber.

O milenarismo secularizado dessa vertente da contracultura revela uma dificuldade em lidar com o cinza, com a ambiguidade e com a lentidão dos processos históricos reais.

O jovem ocidental contemporâneo, criado sob a promessa de progresso infinito e bem-estar permanente, entra em crise ao perceber que o mundo é intrinsecamente trágico, contraditório e imperfeito.

Ao gritarem suas microletras niilistas sobre uma parede de baixo distorcido e bateria esmagadora, os integrantes da banda acabam, ironicamente, emulando as trombetas de Jericó ou a ira de um Deus vingativo. Eles necessitam, mesmo inconscientemente, da grandiosidade cósmica do Antigo Testamento para sustentar sua própria visão de mundo.

De qualquer forma, considero este um disco bastante interessante.

Por incrível que pareça, não quero que isso soa uma crítica negativa.

O universo do powerviolence ainda é relativamente desconhecido para mim.

Sempre gostei de rock progressivo e nunca me incomodei com músicas longas, nem mesmo com aquelas baseadas em extensas repetições, como Starless, do King Crimson. Acredito que o efeito hipnótico da repetição é, muitas vezes, um elemento estruturante da própria música.

Por outro lado, também acho válida essa proposta de extrema economia. É impressionante que um álbum com dez faixas tenha menos de sete minutos de duração.

Escute aqui:

 

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