Hell for a Basement é o álbum de estreia do drug bug, projeto do multi-instrumentista canadense Alex (sim, só Alex).
Trata-se do meu primeiro contato com esse artista e, logo de cara, já fiquei surpreso com sua ambição estética refinada, pouco comum no circuito independente, que tende a valorizar a expressão, muitas vezes em detrimento da forma. Em outras palavras, artistas indie costumam ser excessivamente experimentais para ocultar uma falta de talento composicional.
Não é o caso aqui. Hell for a Basement é um disco que articula, de maneira surpreendentemente sofisticada e deliberadamente heterogênea, a justaposição de indie rock, art rock, chamber pop e rock progressivo.
Vou adiantar: esse disco vai, provavelmente, estar na minha lista dos melhores do ano. É um trabalho muito criativo e muito bem orientado pelo arranjo e pela cor tímbrica.
Alex executa a maior parte dos instrumentos, incluindo guitarras, baixo, clarinete, espineta, balalaica e harmônio (ou órgão de fole), recorrendo pontualmente a colaboradores para arranjos de metais e cordas.
Cada instrumento aqui é pensado como um vetor expressivo autônomo.
Há, no álbum, um sentido claro de exuberância formal, como se Alex condensasse em si uma pequena orquestra de câmara.
É recorrente, por exemplo, o uso de linhas de clarinete que respondem às frases de guitarra, enquanto a espineta sustenta o pulso harmônico.
Trata-se de uma lógica camerística, na qual os instrumentos não se subordinam ao vocal, mas dialogam entre si em regime de contraponto, criando uma malha polifônica rica e móvel.
Nesse sentido, o disco estabelece um diálogo evidente com o rock progressivo dos anos 1970, especialmente com bandas como Genesis, Yes e Camel.
A presença de instrumentos menos usuais no rock, como o órgão de fole e o clarinete, remete às experiências tímbricas dessas bandas.
Temos aqui construções expansivas e estratificadas que remetem a obras como Close to the Edge, do Yes (especialmente na faixa de abertura, que dá nome ao disco), em que camadas acústicas e teclados se entrelaçam em harmonias vocais limpas.
O interessante é notar como o drug bug reelabora esses referenciais progressivos a partir de uma ética contemporânea do DIY (do it yourself).
No entanto, em vez de aderir à lógica mais comum dessa filosofia, geralmente associada à simplicidade e à economia de meios, o projeto segue na direção oposta.
O drug bug assume uma postura explicitamente maximalista.
Para mim, é um disco de rock progressivo setentista por excelência.
As composições se organizam sobre harmonias densas, por vezes com inclinações barrocas, distribuídas em múltiplas camadas simultâneas que expandem e tornam mais complexo o espaço sonoro. Para mim, é prog rock puro.
A sofisticação formal convive com um senso de simplicidade e intimidade. Nesse aspecto, o disco também se aproxima da inventividade de The Beach Boys e The Beatles (bandas essenciais no desenvolvimento do que viria a ser o prog rock), sobretudo na maneira como compreendem a linguagem musical como campo de experimentação, sem se afastar completamente de uma escuta mais imediata.
É experimental, mas assimilável; é complexo, mas sem virtuosismo barato.