Lançado em 1996, Scream, conhecido no Brasil como Pânico, costuma ser lembrado como o filme que devolveu vitalidade a um subgênero que, naquele momento, parecia ter esgotado suas possibilidades. O slasher atravessava os anos 1990 como uma fórmula fatigada, repetindo mecanicamente seus próprios clichês narrativos. Foi então que o diretor Wes Craven, já consagrado por A Nightmare on Elm Street, encontrou no roteiro de Kevin Williamson a oportunidade de realizar algo relativamente raro no cinema de gênero: um filme que, ao mesmo tempo, pertence plenamente à tradição que evoca e é capaz de refletir sobre ela.

O resultado foi também um sucesso comercial expressivo. Produzido com cerca de 14 milhões de dólares, o filme arrecadou aproximadamente 173 milhões ao redor do mundo, sinal de que o público ainda estava disposto a retornar ao terror adolescente, desde que ele viesse acompanhado de uma nova dose de inteligência narrativa.

A história acompanha a jovem Sidney Prescott, interpretada por Neve Campbell, que passa a ser perseguida por um assassino mascarado conhecido como Ghostface. Antes de atacar, o criminoso submete suas vítimas a um jogo macabro de perguntas e respostas sobre filmes de terror. O dispositivo dramático é simples, mas engenhoso: o conhecimento do próprio gênero passa a integrar a estrutura da narrativa.

É justamente nesse ponto que Scream se distingue. O filme não é apenas um slasher eficiente; ele também observa, comenta e reorganiza as convenções do slasher. A obra funciona simultaneamente como narrativa e como reflexão sobre as formas narrativas que a antecederam.

De certo modo, essa ideia já estava em germinação em Wes Craven’s New Nightmare, no qual Craven havia experimentado uma elaborada estrutura metalinguística. Ali, o filme era simultaneamente parte da franquia iniciada por A Nightmare on Elm Street e um comentário sobre sua própria existência, explorando o desgaste inevitável de uma série de continuações.

Outras experiências de autoconsciência também já apareciam no cinema de horror. Friday the 13th Part VI: Jason Lives, de 1986, por exemplo, ensaiava discretas quebras da quarta parede, enquanto The Return of the Living Dead, de 1985, tratava o imaginário zumbi com um humor deliberadamente autoconsciente.

Em Scream, porém, o alcance dessa estratégia se amplia. A metalinguagem deixa de se restringir a uma franquia específica e passa a envolver o subgênero inteiro. O slasher torna-se objeto de reflexão dentro do próprio slasher.

Craven manipula os estereótipos e as regras do gênero de forma tão deliberada que acaba por subvertê-los. Em vez de personagens ingênuos, ignorantes da lógica narrativa que os cerca, os adolescentes do filme são fãs de terror. Eles conhecem as “regras” que supostamente garantem a sobrevivência em um slasher:

Não fazer sexo.
Não dizer “já volto”.
Não subir escadas quando seria mais sensato fugir pela porta.

Essas máximas, que durante anos operaram como convenções implícitas do gênero, tornam-se aqui matéria diegética, quase como um manual cínico de sobrevivência cinematográfica.

O aspecto mais notável, contudo, é que essa autoconsciência não transforma o filme em pura paródia. Scream não assume a postura distante de quem observa o gênero com ironia superior. Pelo contrário. O filme parece nutrir uma evidente afeição por aquilo que cita. Há nele, simultaneamente, lucidez e reverência.

Toda a construção narrativa sugere que o espectador familiarizado com o repertório do horror participa do jogo. O filme pressupõe um público que reconhece referências, identifica fórmulas e percebe os pequenos deslocamentos que o roteiro introduz nessas convenções.

Nesse sentido, a obra funciona quase como uma pedagogia do próprio slasher. Trata-se de um filme que, ao mesmo tempo, homenageia, comenta e reorganiza o gênero diante do grande público.

Não por acaso, ele dialoga diretamente com clássicos como Halloween, além de retornar simbolicamente ao universo que o próprio Craven ajudara a moldar com A Nightmare on Elm Street. O resultado é um curioso gesto de autorreflexão: um filme que ensina o slasher a rir de si mesmo sem deixar de ser, ainda assim, um slasher genuíno.

Talvez seja esse o paradoxo mais elegante de Scream. O filme parece zombar das convenções que utiliza, mas nunca abandona o prazer essencial do terror. O suspense continua funcionando. Os jump scares permanecem eficazes. As mortes ainda provocam choque.

No fundo, trata-se de um gesto duplo. Scream ri do gênero e o celebra ao mesmo tempo. Há nele deboche, mas também homenagem. E talvez seja justamente essa tensão que explica por que, décadas depois, o filme ainda parece extraordinariamente vivo.

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