Gadabout Season é o terceiro álbum da harpista e compositora Brandee Younger, lançado pela gravadora Impulse! Records, e pode ser considerado seu trabalho mais pessoal, introspectivo e ambicioso até o momento. Trata-se de um disco que não apenas amplia o vocabulário musical da artista, mas também aprofunda sua relação com memória, espaço e herança cultural.

Musicalmente, o álbum funciona como um verdadeiro caldeirão de gêneros. Younger articula jazz espiritual, R&B, hip-hop e influências da música clássica em um tecido sonoro orgânico, no qual as fronteiras estilísticas se dissolvem em favor de uma experiência sensorial contínua. Essa diversidade não aparece como colagem, mas como resultado de uma convivência prolongada entre linguagens que se reconhecem mutuamente.

No centro do projeto está o trio formado por Brandee Younger, na harpa, Rashaan Carter, no baixo e na produção, e Allan Mednard, na bateria. Os três músicos tocam juntos há cerca de duas décadas, e essa intimidade é decisiva para o caráter do disco. Há uma escuta mútua refinada e um senso de tempo compartilhado que sustentam tanto os momentos de contemplação quanto os de maior pulsação rítmica.

Além do trio, Gadabout Season conta com um conjunto expressivo de convidados especiais, como Shabaka Hutchings, na flauta e no clarinete, Joel Ross, no vibrafone, Makaya McCraven, na bateria e percussão, Courtney Bryan, no piano, Josh Johnson, no saxofone, e Niia, nos vocais. Essas participações não fragmentam o álbum, mas ampliam suas texturas, funcionando como extensões naturais do núcleo criativo já estabelecido.

Um dos aspectos mais interessantes do disco, para além das composições em si, é o modo como ele foi gravado. O álbum nasceu de forma íntima, no apartamento de Younger, no Harlem, onde um quarto vago foi transformado em estúdio. Esse ambiente doméstico permitiu um processo criativo lento e deliberado, desenvolvido ao longo de vários meses de 2024, dando à música tempo para respirar, amadurecer e se revelar de maneira gradual.

Em contraste com a lógica impessoal e frequentemente pressionada de um estúdio profissional, o lar oferece um espaço familiar e acolhedor. Nesse contexto, há maior margem para a vulnerabilidade e para a autenticidade, o que se traduz em performances mais naturais e emocionalmente carregadas. Ao mesmo tempo, transformar a casa em estúdio implica um risco evidente: o de corromper o espaço doméstico como santuário privado, ao convertê-lo em local de trabalho.

No entanto, no caso de Brandee Younger, esse risco não se concretiza de forma negativa. A própria artista enfatiza que o processo de criação de Gadabout Season não representou uma invasão caótica de sua intimidade, mas sim uma extensão orgânica de relações já profundas, forjadas ao longo de anos de turnê. Os músicos ocupam o espaço como se fossem da família, e essa familiaridade é perceptível no clima do álbum.

Sonoramente, o disco se move em um contraponto hipnótico entre a delicadeza quase angélica da harpa e das flautas e a intensidade rítmica de grooves inspirados no hip-hop, acompanhados por sutis texturas eletrônicas. Esse equilíbrio pode ser ouvido com clareza em faixas como Reckoning, End Means e Breaking Point, nas quais contemplação e pulsação urbana coexistem sem hierarquia.

A harpa tocada por Brandee Younger, nesse contexto, ultrapassa o estatuto de simples instrumento. Ela funciona como um relicário e um símbolo de sucessão, pois pertenceu a Alice Coltrane, frequentemente considerada a “sumo sacerdotisa” do jazz espiritual. Younger tornou-se a guardiã desse instrumento em 2024, após uma restauração meticulosa que integrou o projeto The Year of Alice, uma série de tributos e exposições patrocinados pela gravadora Impulse!.

Assim, além de seu caráter doméstico e intimista, Gadabout Season adquire uma dimensão ritualística, ligada à herança, à iniciação e à continuidade de uma linhagem espiritual dentro do jazz. Esse aspecto se alinha de forma particularmente potente ao imaginário do jazz espiritual, no qual som, transcendência e memória coletiva estão profundamente entrelaçados.

Em última instância, o álbum pode ser imaginado como o encontro entre um santuário antigo e um estúdio de produção moderno. As cordas de uma harpa histórica atravessam o tempo para dialogar com batidas urbanas contemporâneas, criando uma ponte sensível entre a reverência ao passado e a exploração do futuro. Gadabout Season não é apenas um disco, mas um espaço de escuta onde casa, herança e criação se fundem em uma experiência musical profundamente humana e espiritual.

Escute o disco aqui.

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