Conheci o disco The Womb of the World e a banda Qrixkuor por meio de uma lista de melhores discos de Heavy Metal de 2025. Não esperava encontrar algo tão bom, tão contundente, tão radical em ambição estética e tão consciente de seus próprios fundamentos.

As quatro faixas do álbum (So Spoke the Silent Stars, Slithering Serendipity, And You Shall Know Perdition as Your Shrine e The Womb of the World) funcionam como movimentos de uma única obra. Cada uma aprofunda a relação entre música e cosmologia ao explorar o imaginário ocultista do romancista Kenneth Grant, autor que articulou Aleister Crowley e H. P. Lovecraft em suas obras e cuja influência permeia o universo temático da banda.

Qrixkuor traduz essa articulação sombria não como simples ilustração literária, mas como verdadeira estrutura de composição, e o faz com uma precisão e intensidade raras no metal contemporâneo.

O que mais me impressiona é como o disco assume, sem hesitação, uma abordagem simultaneamente grandiloquente e caótica. A sinfonia não está aqui como ornamentação, como normalmente acontece no death metal sinfônico. Não há uma camada orquestral para embelezar a violência do metal extremo. Ao contrário, sinto que as duas linguagens emergem de um mesmo impulso, como se fossem manifestações complementares do mesmo princípio estético.

Qrixkuor não adiciona sinfonia ao metal. Eles compõem suas músicas como se o death metal sempre tivesse sido sinfônico, como se a separação entre os dois estilos fosse apenas uma contingência histórica.

A orquestração é o eixo do sublime. Ela evoca a infinitude, o cosmos e a escala inumana das entidades que Grant e Lovecraft imaginaram. Violinos que projetam distâncias intergalácticas, coros que ressoam como ecos de eras antediluvianas e trompas que parecem emanar a própria entropia criam uma atmosfera de grandeza indiferente. Em Qrixkuor, o sublime é total e, ao mesmo tempo, sem qualquer promessa de transcendência. É o infinito indiferente ao humano.

O death metal, dissonante, tortuoso e hostil, representa a outra face dessa estética. Não é a expansão ilimitada, mas a decomposição. É o orgânico que se desfaz, o sentido que colapsa, o sujeito que se deteriora diante do impossível. Há algo profundamente anti-humanista nos riffs densos, nos blasts que atravessam a música como fraturas e nos vocais que soam como restos de linguagem. Aqui, o gutural encontra seu lugar mais lógico.

Se a orquestração aponta para o exterior absoluto, o metal aponta para um interior em esfacelamento contínuo. Esse movimento duplo, cósmico e carnal, infinito e pútrido, constitui a dinâmica fundamental da obra. O horror cósmico não aparece como metáfora literária; ele se manifesta como forma estética.

Quando esses elementos se fundem, e em The Womb of the World essa fusão é absoluta, ocorre algo raro: uma experiência ontológica da própria insignificância. Não me sinto diante de um épico, mas de um monumento funéreo. Nada aqui se aproxima de qualquer postura heroica. A música orquestral é doente, maculada, alienígena e vertiginosa. O death metal é labiríntico e errático, como se fosse impulsionado por inteligências que não compreendem a linguagem humana.

Ao longo da escuta, comecei a perceber o disco menos como um álbum e mais como um dispositivo estético, um modo de produzir uma experiência filosófica sobre o lugar, ou o não-lugar, do humano no cosmos.

The Womb of the World é um dos raros momentos em que o metal extremo alcança uma sofisticação que dialoga com tradições clássicas sem perder a violência que o define. Ao articular o sublime cósmico com a ruína orgânica, o disco cria uma paisagem sonora em que o som revela aquilo que a linguagem não consegue expressar.

Em suma, discasso. Um dos melhores disco de 2025.

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